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Por que nos relacionamos com pessoas ruins?

Ilustração: Amanda Favali


A dor pode nos fazer acreditar em coisas que não existem. Talvez, por isso, tenho sentido muita vontade de sair por aí falando coisas horríveis sobre você, nada do que você não tenha feito, porém, nada que eu não tenha concordado que você fizesse (nós dois fizéssemos).

A verdade é que, antes de me sentir como eu me sinto agora, eu estive de acordo com tudo. Por isso é errado após ter aceitado em comum acordo o que você tinha para me oferecer eu sair por aí falando mal de você. E essa é a pior parte, sabia? Porque eu não caí de paraquedas nessa relação e não permaneci nela porque eu estive sendo iludida o tempo todo ou sendo enganada, pelo contrário, eu sempre soube que você era um puto e nunca fiquei puta com isso, até agora.

Porque agora eu estou tão machucada que eu sinto vontade de te ferir tanto quanto eu me sinto ferida. O problema é que você não fez nada de errado, nenhuma das nossas regras foram quebradas por você e, mesmo assim, nada parece certo para mim. É, de fato, a dor pode nos fazer acreditar em coisas que não existem!

O nosso combinado inicial já não combina em nada comigo, as regras continuam as mesmas e, aparentemente, elas continuam funcionando para você. Porém, eu não sou a mesma. O nosso acordo está em discordância com as pessoas que ambos nos tornamos ao decorrer desses anos, mesmo você insistindo em negar que ambos não somos mais as pessoas que éramos no início disso tudo.

As nossas regras, que outrora pareciam ideais, já não fazem mais nenhum sentido para mim e quebrá-las se tornou uma espécie de vício (sinto que eu deveria pedir ajuda). E você que odeia brigas e discussões passou a conviver comigo e a minha fúria. Eu me tornei a própria deusa da guerra, mas ainda não sei ao certo por quais motivos me sinto tão furiosa com você. E as cobranças, antes inexistentes, passaram a se tornar cada vez mais frequentes e junto as cobranças vieram as inúmeras acusações.

Sabe, nós mulheres negras ainda estamos aprendendo a falar abertamente sobre relacionamentos afetivos tóxicos. Só agora estamos aprendendo a identificar os chamados "caras embustes". Por isso, para nós, só agora se tornou possível cair fora da relação com vida antes que seja tarde demais. Porém, o que pouco discutimos entre nós é sobre a nossa saúde mental, — como a vivência cotidiana do racismo pode produzir danos e afetar a nossa capacidade de dar e receber amor —, e o quanto ela é fundamental para que tenhamos relações afetivas saudáveis.

Falamos sobre as opressões que vivenciamos cotidianamente e como o racismo afeta nossas vidas em diversos âmbitos. Contudo, não falamos sobre como a opressão e a exploração do período escravocrata distorceram e impediram a nossa capacidade de amar. Amar, para nós, não é uma tarefa fácil, por isso, inúmeras pessoas negras acreditam ser incapazes de dar e receber amor. Eu mesma, durante toda a minha adolescência, me considerei inamorável.

E, mesmo agora, compreendendo melhor por quais motivos me sentia assim, (o racismo produz marcas profundas), ainda tenho muita dificuldade em lidar com os interesses afetivos destinados a mim. Ah! E eu amo você. Tenho dificuldade de lidar com isso também, aliás, a descoberta desse amor foi assustadora, mas tenho aprendido a lidar com ele (o amor), comigo e com você.

Não está sendo fácil, ainda assim, de certa forma, eu sempre soube que o amor era difícil. O que ninguém me disse foi o quão difícil é estar num relacionamento afetivo com alguém que possui uma doença psicológica ou ser alguém com uma doença psicológica dentro de um relacionamento afetivo. O que ninguém me disse foi que não dá para seguir a “cartilha” do feminismo branco quando se está num relacionamento afetivo com um homem negro depressivo.

E ainda assim, é isso que somos instruídas a fazer cotidianamente. Essa “cartilha” me ensinou que se você não me liga é porque você não liga para mim, não está nem aí para o meu bem-estar e eu devo te abandonar.

Se você não me atende é porque está ocupado demais para se importar comigo, aliás, você não se importa comigo, por isso, devo fazer a fila andar.

Se não me atende e não me retorna é porque não dá mínima para a minha existência e eu mereço mais do um cara como você.

Se visualiza e não responde de imediato é porque não quer falar comigo, está me ignorando e eu devo devolver na mesma moeda, te ignorando o dobro.

E se não me exibe por aí é porque sente vergonha de estar comigo ou está escondendo algo de mim e o ideal, nessa situação, é que eu mande você ir se foder.

O que eu demorei para compreender é que você não me liga porque não liga para ninguém, pois, não é muito fã de ligações ou áudios, por isso, sempre termina optando pelo texto escrito.

Tem dias que você não me atende porque não tem ânimo para falar com ninguém e termina saindo de casa para ir trabalhar contrariado, desmotivado.

Às vezes você visualiza e não responde de imediato porque está ocupado, trabalhando ou tão irritado que prefere deixar para responder em outro momento ao invés de descontar suas frustrações em mim ou responder com rudez e iniciar uma briga.

E, por fim, você não me exibe por aí porque você não gosta de se expor, mas também não faz questão de me esconder, pelo contrário, está muito ocupado se escondendo de todo o mundo.

Recentemente eu aprendi que é preciso abraçarmos os nossos próprios demônios, caso contrário, eles irão nos atacar pelas costas. Acredito que cada pessoa possui ao menos um assunto (demônio) do qual vive fugindo, ao invés, de enfrentar (exorcizar). Por isso, aqui estou eu, enfrentando os meus demônios. Na verdade, já não tenho mais como não falar sobre eles, sobre mim, sobre você e sobre o nosso não-relacionamento.

Nos últimos meses eu fui tão má com você, tão impaciente, impulsiva e briguenta. Passamos a brigar por tudo e nada, quer dizer, eu brigava e você tentava entender o que havia feito de errado. E, na maioria das vezes, você não havia feito nada de errado, porém, a distância entre nós dois parecia aumentar a cada milésimo de segundo e você demonstrava não perceber que isso estava acontecendo, aliás, você parecia não perceber nada que estava acontecendo ao seu redor ou o quão frio e insensível estava sendo comigo.

Desde que te conheci você sempre foi tímido e afetivamente distante, apesar de ser, quase sempre, empático e atencioso. E eu não imaginei que a sua timidez pudesse ser um sinal de que algo não estava ok. Também não vi nada demais no fato de você ser tão reservado. Sinceramente, para mim você ser reservado era confortável, pois, enquanto você se mantinha na sua as minhas narrativas descreviam as nossas vivências, o que fazia de mim a dona da história e de você um mero personagem na minha escrevivência.

Só que em determinado momento as coisas realmente pioraram entre nós dois. Você começou a se comportar totalmente diferente do cara que eu conheci e com isso nossas brigas passaram a se tornar cada vez mais intensas e verbalmente desagradáveis, isso porque eu não conseguia compreender os motivos das suas mudanças de humor e você insistia em dizer que não haviam mudanças nenhuma.

A minha necessidade de brigar o tempo inteiro e a sua insistência em dizer que tudo estava bem me fez, em algumas situações, questionar minha saúde mental, mesmo assim, minhas dúvidas sobre a minha sanidade não inibia a minha vontade de brigar. Pelo contrário, brigar com você se tornou uma necessidade para mim, tal como é respirar. As brigas fizeram você se tornar ainda mais introspectivo e frio. E eu comecei a te enxergar e a te descrever como uma pessoa extremamente ruim.

Para a minha percepção você se tornou o macho escroto, o cara embuste, a pessoa ruim. A forma como eu passei a ver você era depreciativa, tudo em você era visto por mim como ruim e eu conseguia ver defeitos tanto nas coisas que você fazia quanto nas coisas que você não fazia. Para mim, os seus comentários se tornaram ainda mais ácidos, você se tornou ainda mais irredutível, ranzinza, impaciente e rude. Tudo que antes era admirável em você se tornou desagradável para mim.

Você também se tornou desagradável comigo sem nenhum motivo aparente e sempre que eu sinalizava isso você discordava e se afastava, chegando ao extremo de ficar várias semanas sem falar comigo. O seu distanciamento me fazia sentir como se você estivesse me punindo por eu ter dito “a verdade”. E essa sensação de injusta punição assegurava que brigássemos novamente, assim que voltássemos a nos falar. No entanto, o afastamento não era exclusividade sua, afinal, quantas vezes já te bloqueei nas redes sociais ou sumi por vários meses sem dar sinal de vida?

O que me magoa é que em nenhum momento passou pela minha cabeça que nada disso era sobre mim ou por minha causa. Em nenhum momento pensei em colocar nossa saúde mental como possível causa. Na verdade, eu me coloquei fisicamente como possível causa e deixei minhas inseguranças alimentarem a minha fúria, mesmo quando você tentava me dizer que não havia deixado de gostar de mim e muito menos havia deixado de se importar comigo.

O que me entristece é saber que esse texto poderia ser sobre você, na condição de “macho escroto” protagonizando a minha narrativa sobre um relacionamento abusivo que nunca existiu e, ainda assim, mesmo sendo inexistente eu sei que inúmeras pessoas acreditariam em mim, aliás, eu mesma acreditaria em mim se eu não nos conhecesse tão bem.

Finalmente, eu compreendo que você nunca mentiu sobre como se sentia sobre mim, assim como, também compreendo que você nunca me magoou intencionalmente. Você não é um abusador. Não é um macho escroto, não é um embuste e, definitivamente, não é uma pessoa ruim. Às vezes, o cara escroto, embuste e ruim não é exatamente esse cara que julgamos que ele seja. Porém, não existe uma história única e cada relacionamento possui um percurso próprio a ser percorrido.

Às vezes, de fato, nos relacionamos com pessoas ruins. Mas, se tratando de você e da nossa história ambos fomos ruins em determinados momentos e muito bons em inúmeros outros. Sei que eu preciso seguir seus passos e começar a fazer terapia, pois, saber que você é um cara com depressão e traços de distimia preenche algumas lacunas que antes me deixava bastante confusa e magoada. E apesar de saber disso não facilitar muito a nossa relação ao mesmo assegura que tenhamos uma relação, né?

Ter uma doença psicológica não anula todos os nossos problemas ou, sequer, justifica todas e quaisquer atitudes. Esse texto não é sobre justificativas ou anulações, pelo contrário, esse texto é sobre como você me tornou uma pessoa melhor, esse texto é sobre eu ter me perdido em você ao longo desses anos e, ainda assim, sempre me sentir em casa quando se trata de você. Esse texto é sobre termos um monte de sentimentos e não sabermos ao certo o que devemos fazer como eles. Esse texto é sobre eu ter escolhido ficar mesmo quando a decisão mais lógica seria eu ter ido embora.

Ah! Esse texto é sobre... Eu amo tanto você!


Buceta delivery


(Ilustração: @isvobodart)











Não lembro onde nem quando ouvi esse termo, mas lembro que o contexto se tratava de caras que não queriam mover um dedo para obter sexo. Pelo contrário, eles ficam esperando as mulheres ir até eles para satisfazê-los. E até aí tudo bem, né? A buceta é sua e você decide quem entra e quem sai. Esse texto não é uma crítica às mulheres, mas sim um desabafo. Eu nunca tinha pensando sobre esse termo ou no fato de que eu venho conhecendo vários caras que buscam "bucetas delivery". E por mais que eu ache o termo pejorativo não sei se eu seria capaz de encontrar melhor título para esse desabafo. Então, percebi que eu venho conhecendo inúmeros caras que não fazem o mínimo esforço para me ver, me conhecer, no entanto, eles sempre sugerem encontros em lugares mais reservados.

Vou compartilhar com vocês algumas situações:

SITUAÇÃO 01: O cara estava morando em Jequié, nos conhecemos através do tinder e, aparentemente, o interesse era mútuo. Depois de algumas semanas conversando decidimos que seria legal nos encontrarmos para bater um papo, trocar um abraço e, se ambos estivessem com vontade, transar. Eu o convidei para vir me conhecer e ele questionou se eu morava sozinha e se ele poderia ficar na minha casa. Eu disse que não e que mesmo se eu morasse sozinha não traria um desconhecido para minha casa. Ele ficou ofendido e por algum tempo parou de falar comigo. Em determinado momento voltamos a nos falar e ele me convidou para ir até Jequié conhecê-lo e eu disse que tudo bem. Durante os ajustes para minha ida sinalizei que eu gostaria que ele fosse me encontrar na rodoviária, no entanto, ele disse que não iria. Disse que iria me passar o endereço da casa dele e que eu poderia pegar um táxi ir até lá sozinha, pois a rodoviária era muito longe da casa dele.

SITUAÇÃO 02: Um cara me adicionou aqui no facebook e começamos a conversar. Rolava um flerte saudável entre a gente, até que um dia ele me convidou para ir conhecê-lo. Ele morava em Conceição do Almeida (cidade vizinha) e eu disse para ele vir para SAJ (Santo Antônio de Jesus, local onde moro), para almoçarmos ou ir ao cinema e nos conhecermos. Ele disse que era melhor eu ir vê-lo e eu questionei o motivo (fiquei curiosa). Segundo ele, se eu fosse conhecê-lo na casa da mãe dele (onde ele morava) as chances de rolar sexo eram bem maiores do que ele vindo aqui almoçar comigo. Inclusive me disse para ir vê-lo e levar camisinhas.

SITUAÇÃO 03: Deu Match! Mas não deu mesmo, rs. Conheci o cara num aplicativo de relacionamento. Moramos na mesma cidade e ele parecia ser legal (só parecia mesmo). Até que eu sugeri de nos encontrarmos na Beijo Frio (uma sorveteira que eu costumo ir) e ele me disse que era melhor eu ir para casa dele, que o sorvete dele era bem mais saboroso (argh!). No dia seguinte ao meu convite (que ele recusou), ele postou uma foto no stories do WhatsApp tomando sorvete na Beijo Frio.

Eu tenho várias outras situações semelhantes para contar, mas vamos conversar somente analisando essas três, ok?

Na primeira situação, cheguei a sinalizar que seria menos desconfortável e mais seguro ele ir me encontrar, falei das inúmeras possibilidades de me perder antes de conseguir encontrar o endereço dele, falei sobre o risco de ser assaltada e/ou estuprada no decorrer do caminho. No entanto, o cara me chamou de exagerada e disse que eu estava fazendo drama. Por fim, eu desisti de ir conhecê-lo. Veja bem, eu iria sair do conforto da minha casa, gastar dinheiro com passagem para ir ver um cara que se recusou a ir me encontrar porque a rodoviária ficava longe demais da casa dele.

Na situação dois, o cara queria que eu fosse vê-lo na casa da mãe dele, (com a mãe dele estando em casa, eu perguntei) e que levasse camisinhas para ele me foder. Sinceramente, nem quando eu era uma adolescente eu tinha o hábito de ir para casa da mãe de ninguém transar, cês acham que vou começar agora depois de adulta? Me poupe, viu? Existe hotel, motel, pousada pra que mesmo? Optei por não conhecê-lo e não me arrependo.

Precisamos mesmo falar da situação três? Então, o cara não quer me conhecer. Ele quer sexo, quer que eu vá até a casa dele, sem nunca tê-lo visto na vida, dar para ele. Não vai rolar, prefiro ir tomar sorvete, lá na Beijo Frio, sozinha! Antes só do que mal acompanhada, rs.

Como já disse, venho conhecendo vários caras que buscam “bucetas delivery”. Caras que nunca querem se encontrar em lugares públicos, caras que nunca se disponibilizam para nada, aparentemente, nem para comprar camisinhas. Acredito que sexo é partilha, sendo assim, não é obrigação do cara comprar camisinhas, não é obrigação do cara pagar conta de motel sozinho, assim como, não é obrigação levar a mina para sair e pagar sozinho tudo que ambos consumirem. No entanto, venho me deparando com caras que não querem partilhar nada, nem a própria companhia. Sabe, eu acredito que devido ao fato de nós mulheres, especialmente as feministas, começarmos a adquirir maior independência e a correr atrás do que queremos os caras começaram a se comportar como se devêssemos correr atrás deles e pagar altíssimo para transar com eles. Porém, não vejo lógica nenhuma em transar com um cara que fica esperando sentado a mina ir lá chupar o pau dele até ficar duro o suficiente para ela sentar. Caras que, inúmeras vezes, se recusam a chupar bucetas, caras que sequer são minimamente educados, caras que acham que sexo é só penetração.

Caras que não precisam fazer absolutamente nada, sabe? Não precisam transar bem, não precisam saber chupar uma buceta (isso é importante), sequer precisam tratar a mina com respeito e/ou decência. Conheço caras que mentem, traem, assediam, agridem, estupram e, mesmo assim, basta um clique, uma ligação, uma mensagem grotesca em qualquer rede de relacionamento para que alguma mina vá satisfazê-los. Como isso é possível?

Manas, quem esses caras estão pensando que eles são?

P.S.: Fico pensando se essas situações são exclusividades minhas por ser negra e gorda. Afinal, tem cara que acha que mulheres gordas devem agradecer quando alguém quer transar com elas. Enfim, compartilhem comigo as situações pelas quais vocês já passaram e/ou ainda passam.
  
(Texto originalmente publicado no meu perfil do facebook em 26 de fevereiro de 2018)

Quem paga a conta?



Senta que lá vem textão! 
(Texto originalmente publicado no meu perfil do facebook em 13 de agosto de 2018)
  
Pensei que já havia conversado sobre isso por aqui, mas percebi que não. Então, bora conversar?

Sinceramente, eu tô cansada de ouvir frases como:

Frase 01: “— Em pleno 2018 e ainda tem mina que deixa o cara pagar a conta.”

Frase 02: “— Só é feminista na internet, nos rolês fica esperando os caras bancar.”

Frase 03: “— Ela é interesseira sim, saímos juntos e ela queria que eu pagasse o lanche dela.”

Ouço coisas assim e fico me questionando onde está o bom senso das pessoas, porque parece que em determinadas situações ele evapora ou sequer existiu.

SOBRE A FRASE 01: Gente, o fato de ser, ou não, dois mil e dezoito não tem nenhuma relação com deixar ou não o cara pagar a conta, até porque cotidianamente caras fazem o que eles querem fazer, sendo assim, nem é sobre a nossa permissão, ok? O cara só paga a conta se ele quiser pagar. Inclusive, se ele não quiser pagar ele não irá e não tem “obrigatoriedade de gênero¹” capaz de forçá-lo a pagar conta nenhuma.

SOBRE A FRASE 02: O que o feminismo tem a ver com isso? Sério, me diz: O que o Feminismo tem a ver com o fato da mina gostar de ser bancada por homens? Aliás, qual é o problema se a mina gosta de ser bancada e encontra homens que estão dispostos a bancá-la? Sinceramente, não sei onde está o problema nisso. Apesar de nunca ter sido bancada por homem nenhum e ter aprendido desde muito cedo com o meu pai que não dá para esperar nada de homem, — pelo contrário, painho me ensinou que depender de homem é uma desgraça —, não vejo nada de errado nisso.

SOBRE A FRASE 03: É impossível não ri de situações como essa... Um simples diálogo antes de sair resolveria o inconveniente e ninguém precisaria sair esculhambando ninguém por causa de um lanche, né? Mas, o diálogo está tão escasso... Dá até tristeza!


DEIXA EU DIZER UMA COISA IMPORTANTÍSSIMA PARA VOCÊS: Inúmeras pessoas (em especial os homens) acham que o “pagar a conta” tem relação apenas com questões de gênero e sexualidade, ou, como li hoje: “obrigações de gênero” que faz referência a heteronormatividade, que por sua vez, consiste em situações nas quais orientações sexuais diferentes da heterossexual são marginalizadas, ignoradas ou perseguidas por práticas sociais, crenças ou políticas.

Como afirmam Analídia Petry e Dagmar Meyer: “A heteronormatividade visa regular e normatizar modos de ser e de viver os desejos corporais e a sexualidade de acordo com o que está socialmente estabelecido para as pessoas, numa perspectiva biologicista e determinista, há duas – e apenas duas – possibilidades de locação das pessoas quanto à anatomia sexual humana, ou seja, feminino/fêmea ou masculino/macho.³”

Mas, não é bem assim. O “pagar a conta” está diretamente relacionado com raça e classe também, falo isso por perceber que pouquíssimos foram os homens que se disponibilizaram para pagar quaisquer coisas para mim e isso não é coincidência. Na verdade, essa não é uma experiência exclusiva minha, assim como, a dificuldade em aceitar que homens paguem coisas para mim. E mesmo sendo algo extremante raro, quando acontece eu fico muito sem jeito, porém, nunca me senti ofendida, constrangida ou menos feminista ao aceitar (apenas desconfortável e/ou em choque, rs).

Sinceramente, não consigo ver constrangimento em aceitar que uma pessoa que ganha entre 2 a 4 mil reais se disponibilize a pagar 20 reais em um lanche para uma pessoa que ganha uma bolsa estudantil no valor de 400 reais. E não é sobre a pessoa que ganha 400 reais não poder pagar seu lanche, é sobre poder aquisitivo, estabilidade financeira, ou seja, estar numa situação financeira favorável². Como supracitei: Costumava me sentir desconfortável quando um homem se oferecia para pagar algo para mim por não compreender que não sou interesseira só porque um cara quis, por livre e espontânea vontade, pagar algo que eu consumi.


Vejamos uma situação/pergunta que eu ouço/leio bastante:

SITUAÇÃO: “— No motel quem paga a conta?”

Algumas pessoas me dizem que a resposta muda conforme as configurações da própria relação. Inclusive, já ouvi que em relações homoafetivas a conta tende a ser dividida, enquanto que nas relações heterossexuais o homem deve pagar.

MINHA RESPOSTA: “— A conta deve ser dividida independente de ser uma relação heterossexual ou não. No entanto, não tem nada de errado ou constrangedor se dentro da relação existe uma pessoa numa situação financeira favorável que optou por pagá-la.”



NOTAS:

01. Obrigatoriedade de Gênero: Faz menção a nossa socialização machista que coloca como obrigatoriedade do homem ser o provedor de sua esposa, ou seja, ainda existe a crença de que quem deve pagar a conta seja do motel ou do restaurante é homem.

02. Situação Financeira Favorável: Consiste numa pessoa estar financeiramente estável. Coloco pessoa por compreender que as relações afetivas são distintas e estar numa situação financeira estável não é característico apenas de um gênero e/ou raça. Todavia, cabe aqui salientar que nos relacionamentos heterossexuais é comum os homens estarem numa situação financeira favorável já que a nossa sociedade é machista e patriarcal fazendo com quem mulheres recebem menos mesmo quando desenvolvem o mesmo trabalho que os homens e esse agravante se torna ainda mais latente quando fazemos o recorte de raça, ou seja, mulheres negras recebem ainda menos simplesmente por serem Mulheres Negras.



P.S.: Na sua opinião quem deve pagar a conta? Deixa sua opinião aí nos comentários!

Quase amor!



Venho encarando o cursor piscando na página em branco do meu bloco de notas por várias semanas, aliás, vários meses. A verdade é que eu estava com muito medo de voltar a escrever. Estava com medo por saber quão desagradável e afiada a minha escrita tende a ser. Ela é dolorosa, sabe? Além de ser extremamente sincera e isso nem sempre é algo bom. Mas, venho pensado muito em você ultimamente, venho pensando nas nossas inúmeras conversas e o motivo pelo qual eu ainda não consegui escrever sobre você aqui. Há algum tempo eu costumo dizer que eu deveria vir com uma sinalização de segurança, grifada em Caps Lock (caixa alta) e Cores Néon, sinalizando: “ — Cuidado, Alta Voltagem”, até conhecer você. Na verdade, mesmo após conhecer você eu continuo acreditando que eu deveria andar por aí com a minha plaquinha preventiva, no entanto, você deveria sair por aí expondo a sua plaquinha também, você deveria sair por aí com o aviso: "Cuidado, frágil".


Preto, quantas vezes eu irei conseguir quebrar o seu coração até você perceber que por mais que eu tente ser cuidadosa jamais irei conseguir conter o vulcão que habita meu íntimo? Quantas vezes iremos reavaliar todas as oportunidades que nós dois não aproveitamos corretamente ou que deixamos passar despercebidas? Desculpa, eu não queria magoar você, mas acabei fazendo disso meu hobby. Magoar você se tornou minha atividade favorita e eu já nem sei o que fazer para quebrar esse ciclo vicioso. E o problema é que não magoar você se tornou algo improvável para mim. Não é que eu não me importe contigo. Sei que às vezes eu posso demonstrar uma insensibilidade assustadora, porém, eu me importava com os seus sentimos. Para ser sincera, eu ainda me importo e sinto a sua falta.

Mas eu não te amo, aliás, eu acho que não te amo (mesmo sentindo a sua falta). Ainda não sei direito se te amo ou não te amo, estou incerta quanto a isso. Gosto de pensar que se eu te amasse eu saberia. No entanto, quando é que sabemos que amamos a outra pessoa? Existe alguma espécie de teste para assegurar nossos sentimentos? Questiono porque eu já amei antes e não foi nada parecido com o que eu sinto agora, eu já amei antes e aquele sentimento não possui nenhuma semelhança com o que eu sinto por você. Será que o que eu sinto por você é amor ou será que o que eu senti anteriormente nunca foi amor? Estou confusa, incerta e receosa.

Porque sempre que eu penso em amor projeto em minha mente uma imagem de mim mesma dançando no meio de uma sala (que não é a da minha casa) vestida com uma blusa branca fofinha com estampa de gatinhos e uma calcinha igualmente branca, sem estampas, e de algodão (poderia ser renda, né?). Ah, nessa projeção também estou usando meias cinzas e rebolo ao som da Alicai Harley. Mentira, na realidade eu canto e pulo bem mais do que rebolo. Enfim, não é algo sexy e caso você esteja imaginando algo sensual, saiba que não é.

Eu costumo ri muito sempre que visualizo essa cena por ser algo tão ingênuo e bonito de visualizar. Só que sempre finalizo minha imaginação desanimada por saber que todo o contexto parece inapropriado para mim, principalmente por causa das meias (raramente uso meias). Essa projeção que o meu imaginário faz sempre que eu penso no amor me faz pensar bastante em uma das nossas últimas conversas. Tenho pensado, com desânimo, no quão eu, você, o amor e a minha projeção do amor somos dispares. Estive pensando sobre o quão terrível eu posso ser e no quão cuidadosa eu deveria ter sido, o tempo inteiro, para não ser terrível com você (e eu falhei de maneira absurda nessa parte).

Outro dia um amigo me disse que sou uma garota que adora looping (repetição automática de uma ocorrência; andar em círculos) e a tática dele para driblar meu looping é evitar esse meu péssimo hábito. Já a sua tática é me evitar constantemente colocando em prática o seu próprio looping que consiste em: se aproximar de mim, se machucar e me afastar em seguida. E eu sei que você me afasta porque eu te assusto, (caramba, eu te apavoro).

Me diga: Qual é a sensação de ter algo e ao mesmo tempo não ter? Porque nós dois sabemos que você me tem, mas eu sou minha.

Também costumo rir de mim, de você e da possibilidade de existir nós, mesmo quando as circunstâncias não são engraçadas. O problema é que eu não consigo não rir do seu desespero ao tentar me proibir, me podar e me controlar. Você nunca aprende que eu não funciono assim e isso me irrita. E é algo tão óbvio que já deveríamos ter superado isso, né? A questão é bem simples: Quanto mais nãos você me disser, quanto mais desaprovações você me der mais questão eu farei de vivenciar tudo que eu puder. E por causa da minha teimosia em aproveitar cada sim que a vida me proporciona você acaba me bloqueando, tirando de mim qualquer possibilidade de fazer parte da sua própria vida.

Preto, nós continuamos andando em círculos (looping), já percebeu? Você sequer consegue lembrar o motivo da nossa última briga. E o que me assusta é como eu sequer percebi que estávamos brigando... Lembro que você me proibiu de escrever sobre você e eu simplesmente respondi: " — Não funciono assim, irei escrever sobre o que eu quiser escrever e se eu quiser escrever sobre você eu irei". Eu nem falei por birra ou teimosia, de fato, não funciono dessa maneira. Cara, você não decide o que eu posso ou não fazer, você não autoriza sobre quem eu posso ou não escrever. Entenda, comigo não funciona assim. Você não tem nenhum controle, comigo você não é autoridade. E sempre que você ousar mandar em mim eu irei te contrariar e por fim irei rir de você.


Sorrio porque a sua ingenuidade é engraçada demais. Você já considerou a possibilidade de ter se apaixonado por uma mulher que você não irá conseguir controlar? Será que você já considerou a possibilidade de estar apaixonado por uma mulher que você sente medo? E somado ao medo está a sua fragilidade e falta de confiança em mim.

E quando falta amor?

Estava pensando quando exatamente eu comecei a me amar, me amar de verdade, incondicionalmente, sabe? Hoje parece fácil essa coisa de me olhar no espelho e amar o reflexo presente ali, mas nem sempre foi tão fácil ou simples. Em algum momento eu aprendi a me amar, me amar de verdade sem todas aquelas críticas destrutivas e cruéis. Mas já me odiei, odiei o fato de eu ser gorda, de eu ser preterida e até mesmo de ser sempre a cupido, nunca a garota escolhida, desejada.


Eu gostaria de poder dizer que com o tempo isso passa, essa falta de amor-próprio some, porém, não é verdade. Não foi o passar do tempo que me ensinou a me amar. Não mesmo, com o passar do tempo isso só piorou, eu me isolei das pessoas, do mundo em si. Destinei meu tempo a coisas que prendiam a minha atenção, escrever, por exemplo.

Um dia eu me apaixonei, – Creio que isso era inevitável –, e me comportei como todas as meninas ao meu redor, nada muito espetacular (mas não foi a melhor experiência da minha vida). Aprendi bastante com essa paixão, lições preciosas sobre amar a si mesma e sobre abrir mão do amor-próprio em nome do relacionamento. Por isso, atualmente ao questionar o que as pessoas estão procurando em um relacionamento não fico muito surpresa ao ouvir que não é amor o que elas buscam.

Confesso que quando me apaixonei estava buscando o amor, não era o melhor amor o que eu quis, era algo idealizado e possessivo., mesmo assim, acreditava que era o melhor amor que eu poderia ter. Atualmente as pessoas falam em ter alguém com quem compartilhar bons momentos, falam sobre carinho, troca de afeto e companhia, mas optam por não falar sobre o amor.

Ouço as pessoas falando incessantemente sobre ter alguém não para amar, mas basicamente só sobre ter alguém, porque estar só parece horrível, quase insuportável. Ter alguém se tornou uma meta de vida, uma perspectiva para adquirir o tão sonhado sucesso. Mas não é sobre amar alguém, é sobre ter como se o outro fosse um objeto de posse.

E para ter esse tão esperado alguém é natural fazermos ajustes, concessões, abrir mão de algumas coisas. E nesse processo de abrir mão de algumas pequenas coisas nós deixamos de ir para inúmeros eventos porque a outra pessoa não pode ir (ou não quer ir). Nós deixamos de assistir determinados filmes e séries porque a outra pessoa não gosta ou prefere outra coisa, deixamos de usar determinada roupa (Como um simples vestido azul) porque para a outra pessoa é aquela roupa é inadequada causando desconforto sempre que usamos.


Em prol de ter alguém diminuímos nosso próprio ritmo, mudamos de canal e abrimos mão de coisas básicas, supostamente banais. Até que percebemos o quanto paramos de fazer coisas banais e passamos a nos comportar em prol dos caprichos alheios. Desistimos de iniciar uma discussão, mudamos de assunto, nos silenciamos diante de um problema e ignoramos qualquer desconforto em prol de ter alguém.


Começamos a nos comportar com base no que é bom para o relacionamento. Nós nos acostumamos a temer uma ligação perdida e aquela visualização sem resposta, ficamos com medo de uma possível “DR”, da briga e do sermão e por fim do término iminente e tudo isso não é porque amamos a outra pessoa, é só pelo comodismo, pelo hábito de tê-la ou por medo do fracasso que a sociedade propaga sobre estar só. Nós nos comportamos porque queremos ter alguém mesmo que esse alguém não nos queira do jeito que somos.

Ele não te quer tanto assim!


Não consigo entender o que você viu nele, parece que gosta de sofrer. Esse seu desejo é irracional, será que você não percebe que ele não te quer tanto assim? Para ele você é apenas um "tanto faz", mais uma em um cardápio. Por que não deixa alguém te amar?  Parece que gosta de colecionar feridas. Ninguém lhe contou que as suas expectativas são altas demais? Garota, ninguém consegue alcançá-la, por isso, todos aqueles que tentam desistem devido ao cansaço que é querer você. Alguém precisa lhe dizer que não existe um cara perfeito, esse cara que está procurando encontra-se fragmentado em todos os outros caras que você insiste em dispensar. Acorda, perceba que a sua busca é insana, um desperdício de tempo. O mundo inteiro já percebeu menos você. Tudo bem, você possui problemas por ser uma mulher emocionalmente desequilibrada, indecisa e insegura. Mas, quem não tem problemas? Esqueça essa parte, direcione sua atenção para o que realmente importa. Para você, o que realmente importa? Decida, faça uma escolha e coloque toda essa energia que está desperdiçando cotidianamente com um cara que não te quer nessa decisão. Porque você sabe que ele não te quer, por isso que você insiste nessa história. Se ele te quisesse você já teria desistido. Com você é sempre assim, nada é mais importante do que o jogo da conquista, o processo de sedução. Mas, dessa vez o xeque-mate não foi seu.

Ela não te quer!




Ela não te quer porque no fundo ela é uma menina com medo desse Homem que você insiste em ser. Ela não te quer porque não se acha boa o suficiente para tamanha frieza que suas atitudes demonstram. Mesmo sendo uma mulher crescida, dona do próprio corpo, que paga suas contas em dia, Feminista declarada, que odeia cozinhar e sabe que não nasceu para ser rainha do lar, nos seus braços ela quer ser apenas uma menina com medo do escuro, apaixonada por Indie Pop e R&B. Ela é incomum, dificilmente irá te odiar por não perceber o seu corte de cabelo novo, mas ficará magoada se você não presenteá-la com aquele livro do qual ela passou meses falando e até adicionou como desejado no Skoob. Para satisfazê-lo ela fará um strip-tease no sábado a noite, mas no domingo irá querer assistir alguma comédia romântica, provavelmente Como Se Fosse A Primeira Vez ou Um Amor Para Recordar. Após o filme irá dormir de conchinha, aconchegada ao seu corpo e calor. Ela quer gritar o seu nome enquanto goza, assim como, também quer gritar o seu nome quando acordar assustada no meio da noite. Lembre-se que ela irá negar sempre que você perguntar se todo aquele mau humor é TPM, mas saiba que ela fica péssima, irritada, chorosa e insegura, por isso, a ame em dobro nesse período, pois o seu relacionamento dependerá disso. Durante um feriado prolongado ela desistirá de ir pra aquela festa com o DJ Snake, para ficar em casa assistindo novamente todos os 13 episódios da série Demolidor com você. Cara, ela não te quer porque você é um idiota, frio e indiferente que prefere ser solteiro a se arriscar em uma paixão novamente. Na verdade, ela te quer, mas você não a quer de volta, pois não está disposto a oferecer todos os mimos que ela precisa. 

ENCANTO XI: Nunca quis um príncipe!

A seta certa
Acerta
(Victor Az)

Créditos da Imagem:
Poesia Visual – Victor Az


Eu sou uma bagunça, uma mulher complexa que usa reticências de maneira exagerada porque tem uma tara inexplicável por esse subjetivo sinal gráfico. – Quem tem tara por um sinal gráfico? Eu tenho, acredito no poder de sugestão das reticências, pois cabem tantas coisas nesses três pontos... Também tenho tara por pessoas inteligentes, sendo essa tara na verdade um dos meus fetiches. Dificilmente um homem popularmente gostoso, (nada além de gostoso), irá despertar a minha atenção, porque eu sou tarada por sorrisos fáceis, inteligência, criatividade e bom humor, ou seja, eu sou tarada por você. Mas não posso admitir, ainda não. Por isso, me irrito contigo, mesmo quando você não fala ou faz nada. Estou sempre irritada, confusa e enlouquecida, porque você é o cara que eu quis mesmo sem saber que existia.

Inconscientemente eu pedi aos céus alguém como você. Eu rezei para que quando eu me apaixonasse novamente fosse por uma pessoa que não enxergasse os fatores secundários como primários. Alguém sábio o suficiente para compreender que aparência, idade, religião, e até mesmo os defeitos, são meros detalhes que compõe um todo. E é esse todo que realmente importa. “O importante é a pessoa em si, o resto é detalhe.” Esperava alguém que fosse bom de cama e de cérebro. Alguém que excitasse não apenas o meu corpo, – porque esse é fácil, me trai por qualquer caricia –, mas também a minha inteligência. Esperava alguém que mesmo com as mãos longe do meu corpo fosse capaz de me fazer hiperventilar. E você faz, você me causa um turbilhão de sensações, e todas essas sensações me fazem pensar no quão ferrada eu estou.

Você está me ganhando aos poucos, como alguém que não quer nada... Gostaria de saber o que irá fazer quando finalmente me ter. Porque nós somos díspares, eu ouço funk como fonte de inspiração e você Marisa Monte. Eu sou exagerada, enquanto você é direto e objetivo. Você é calmaria e eu sou um furacão. Eu sou complicada e você tranquilo. Você não ‘cria caso’, não faz drama, e isso é muito bom. Bom demais, mas toda essa atenção me deixa louca. Não estou habituada a ter olhos atentos assim, em mim. A forma como você está me olhando, desnudando Minh’alma, me deixa irritada, pois eu não quero me apaixonar, mesmo assim, eu irei.

Cara, isso nunca acontece comigo, ninguém consegue enxergar além do que eu quero mostrar. Você é o primeiro a enxergar além da idade, das curvas, dos defeitos, da menina. Você é o primeiro a ver a mulher, sem lentes de contato coloridas. Isso é assustador, no entanto, o que realmente me assusta é saber que você não está assustado. Eu nunca quis um príncipe, ainda não quero. Então você surgiu, me fazendo perceber que nenhuma versão de príncipe encantado seria capaz de superar você e todos os seus mistérios, enfim você é a melhor versão de príncipe encantado que alguém poderia querer. Estava ficando cansada de esperar por você, que bom que você apareceu, agora eu sei que a espera valeu a pena.

Inspiração: Victor Az.

Í.N.T.I.M.O.S.: Por Acaso – A História de Um Amor Encontrado!


Foi por acaso... Eu estava ali sozinha, sentada à janela do trem quase vazio, totalmente concentrada na leitura de um livro... E então você entrou... Parecia cansado; tirou a mochila do ombro, e sentou no primeiro lugar vazio que encontrou – assim, por acaso –, de frente para mim. Acho que eu mal tinha notado sua presença, até ouvir você suspirar, olhando distraidamente para a capa do meu livro, e dizer, meio sonolento, que o casal ficaria junto no final. Eu ri... Apesar de o título ser sugestivo, eu não estava lendo um romance.

Mas então, por acaso também, quando eu estava prestes a dizer alguma coisa sobre não ser educado revelar o final a uma pessoa que ainda está lendo o livro, o trem deu um solavanco, que me projetou para frente, e fez meu livro cair no seu colo. Você o confiscou, sorrindo, e só me devolveu quando chegamos à minha parada, mas não sem antes colocar dentro dele um cartão com seu telefone.

Eu nunca pretendi ligar, afinal, você era um cara estranho, que praticamente sequestrou meu livro no trem, insistindo em conversar, e ainda fingiu conhecer o final de uma história que estou certa de que você nunca tinha ouvido falar...

Mas então, por acaso, outra vez, nós nos reencontramos, agora num vagão lotado, e enquanto a multidão empurrava o meu corpo contra o seu, você me perguntava se faltava muito para eu terminar o livro. Achei que você era maluco, e não sei por que razão eu continuava dando atenção ao que você dizia, mas o seu jeito doce e sincero de me olhar, lentamente foi colocando abaixo todas as minhas defesas.

Assim, por acaso, lá estava eu, aceitando tomar um café com você; e depois um filme; e depois um jantar; e quando menos esperei, o café com você, se tornou café da manhã; a janela por onde eu olhava era a do nosso quarto; e não havia mais lugar vazio ao meu lado no trem. Porque eu descobri no seu jeito completamente atrapalhado de se aproximar, as primeiras frases do enredo de um romance, que só o acaso, mesmo, poderia criar.

Porque, quem mais, senão o acaso, poderia colocar no meu caminho (duas vezes!) um cara, que à primeira vista, nem fazia o meu tipo, mas que, por acaso, era exatamente o que eu precisava?

E então, de repente, da garota que estava lendo sozinha no vagão de trem, eu me tornei a metade de nós; parte de uma história que estava sendo escrita pelo acaso. E o acaso, talvez, seja na verdade um pseudônimo que o destino usa quando quer permanecer anônimo, e realizar o inimaginável.

E assim, um dia, por acaso, eu percebi que você tinha razão desde o início: eu não precisaria ler o livro até o final, pois eu tinha certeza de que o casal nunca mais iria se separar.


Sobre a autora: Talita Vasconcelos é uma escritora nacional. Paulistana, 20 e poucos anos, apaixonada por livros, cinema, música boa, e escrever. Autora de três livros publicados em e-book: a antologia “A Morte Não é o Fim”, e o romance “Alma de Rosas”, e um romance sobrenatural, "As Noivas de Robert Griplen".



Í.N.T.I.M.O.S.: Sentimentos Guardados no Armário!

  
Estava organizando os meus armários e gavetas, me desfazendo de coisas velhas que já não me servem, e me alegrando por encontrar aquele suéter de linho branco há muito perdido, e um trocado completamente esquecido no bolso de uma calça jeans...

É engraçado as coisas de que nos esquecemos com o tempo. Eu abro esse armário todos os dias, mas não consigo me lembrar quando foi a última vez que eu realmente reparei naquele gato de pelúcia que você me deu, embora ele esteja sempre ali, apoiado na prateleira, sombreado por um dos meus casacos de inverno. Mas hoje, por alguma razão eu reparei nele, ao tocar o pelo suave e macio. Lembro exatamente do dia em que você apareceu com ele, com um laço vermelho no pescoço, e disse que nosso amor iria durar até o dia em que esse gato de pelúcia morresse. Esse foi seu jeito bobo e extremamente adorável de me dizer que nosso amor iria durar para sempre.

Por que será que não deu certo? Às vezes eu me pergunto isso. Se eu não fosse tão teimosa... Se você não fosse tão certinho... Se tivéssemos nos esforçado mais... Não há nada errado em lutar com uma peça que não se encaixa para completar nosso quebra-cabeça. Talvez a beleza esteja exatamente nisso: em juntar nossas diferenças, e ir ajustando aos poucos, até colocar tudo em ordem, num encaixe perfeito.

Infelizmente, as coisas não aconteceram como a gente planejou. Nós demos importância demais a algumas manias bobas; eu ficava irritada com os seus planos que insistiam em não se ajustar aos meus; e em algum momento você também se cansou da minha teimosia. Só o que restou foi o gato, com o pelo branco e macio guardado no meu armário, protegido do desgaste do tempo, com suas sete vidas intactas; aquelas sete vidas imortais que deveriam durar o tempo do nosso amor.

“E agora?” A voz de Caetano vem do rádio, ecoando nos versos da canção as palavras que meu tolo coração decidiu ressuscitar com as nossas lembranças. “Que faço eu da vida sem você?” Porque antes de te conhecer, eu só sabia do amor o que diziam os poetas. E agora não sei o que fazer com esse espaço vazio que você deixou no meu peito.

É tolice querer voltar atrás, e corrigir aqueles pequenos erros? Mandar para o inferno aquelas diferenças banais que nos fizeram abrir mão de tudo o que tínhamos? Será que você, alguma vez, também já se perguntou isso?
Sei lá... Talvez eu só esteja procurando um pretexto para chorar. E um lembrete de que o amor foi maior que os nossos defeitos bobos. Mas, infelizmente, acabou.

Talvez um dia eu consiga me desfazer desses arrependimentos, como das roupas velhas que não me cabem mais. Mas esse dia não é hoje. Hoje eu vou terminar esta carta, e guardá-la no armário, junto com as nossas lembranças. Afinal, o gato ainda não morreu...


  
Sobre a autora: Talita Vasconcelos é uma escritora nacional. Paulistana, 20 e poucos anos, apaixonada por livros, cinema, música boa, e escrever. Autora de três livros publicados em e-book: a antologia “A Morte Não é o Fim”, e o romance “Alma de Rosas”, e um romance sobrenatural, "As Noivas de Robert Griplen".


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