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CERATOCONE: diagnóstico, aflições e possíveis tratamentos!


Ilustração: Atratis Digital


Não gosto de falar que eu tenho ceratocone, talvez por isso as pessoas ao meu redor, às vezes, esquecem que eu tenho uma péssima visão e quase nenhuma qualidade de vida. Ter ceratocone me afeta mais do que eu gostaria de admitir. — Sabe quando temos um problema e evitamos falar sobre com intuito de que ele desapareça como num passe de mágica? Essa sou eu quando o assunto é minha péssima visão. Algumas pessoas não entendem quando eu passo por elas na rua e não falo, assim como, também não entendem por qual razão eu dificilmente tiro meus óculos escuros (aliás, agora são óculos marrons!). Uso os óculos como escudo, morro de medo de cair um cisco no meu olho ou piscar errado e “puf!", lá se foi minhas lentes de contato.

Durante, praticamente, toda a minha adolescência eu usei óculos, porém, o grau sempre foi baixo e usá-los não era um incômodo para mim. Acho que durante a adolescência o uso de óculos reforçava o estereótipo de “pessoas inteligentes”, existia toda uma expectativa entorno das e dos jovens que usavam óculos, creio que atualmente isso tenha caído por terra. Vejam qual era o meu grau em 2009:



Usei óculos durante todo o ensino médio, mas eles não estavam resolvendo a minha miopia. Em 2011 percebi que os óculos não adiantavam muito, pois, além de não melhorar minha visão também não diminuía as minhas fortes dores de cabeça. Através do SUS fui para alguns oftalmologistas especialistas em retina, mas sempre voltava com prescrição para óculos e nenhuma solução efetiva.

Em 2013, durante uma brincadeira entre colegas de faculdade acabaram colocando a mão no meu olho direito, tapando completamente a minha visão direita, e foi nesse momento que eu percebi que tinha algo errado com o meu olho esquerdo. Percebi que via tudo nublado. Retirei a mão que estava no meu olho direito e decidi refazer o processo: Tapei meu olho direito e, novamente, vi tudo nublado com o olho esquerdo, tapei o olho esquerdo e vi normal com o olho direito. Decidi ir a um oftalmologista. E aí começou a minha caçada em busca de descobrir o que eu tinha.



Minha primeira consulta, em busca de respostas, foi uma consulta particular na OCULAR Clínica de Olhos com um especialista em retina, Dr. Efrígenes Ferreira, que resultou no seguinte encaminhamento: 


Sinceramente, a primeira vez que ouvi a palavra CE-RA-TO-CO-NE foi como se eu estivesse ouvindo um xingamento, pensei: “— Que diabos de doença é essa que eu nunca ouvir falar?” Mal sabia eu, naquele momento, que iria me tornar tão íntima da palavra e dessa doença. Dr. Efrígenes Ferreira também solicitou óculos, mas, acredito que ignorei tanto a solicitação para comprar novos óculos quanto o encaminhamento para um especialista em córnea. Lembro-me que naquela época, além de estar bastante assustada, a minha condição financeira me deixou paralisada. Eu não tinha a menor condição financeira e pagar mais uma consulta particular, muito menos novos óculos.

Enfim, demorei quase dois anos para procurar entender o que eu tinha e só procurei atendimento porque meu olho direito (o olho bom) já não estava mais enxergando tão bem quanto antes e terminar a faculdade começou a parecer uma missão impossível, ( Como cursar licenciatura em história sem conseguir fazer a leitura dos textos?).


Somente em 2015 tive condições de retomar minha busca por um diagnóstico. Com isso, no dia 05 de outubro de 2015, iniciei meu acompanhamento com um especialista em córnea, Dr. Mauro Dias, confesso que a descoberta de que eu teria que usar lentes de contato extra rígidas gás permeável não me agradou muito não, aliás, posso afirmar com toda convicção que esse foi um dos piores momentos da minha vida e a aflição veio logo em seguida ao saber que, na época, um par dessas lentes custava 2.500 reais. “— Como uma bolsista da graduação, cuja bolsa era de 400 reais, iria conseguir sobreviver e ao mesmo tempo comprar lentes de contato tão caras?” Eis que surge a ideia de criar uma vaquinha online.


Uma visão mais clara para Andrielle Antonia



Sou imensamente grata pela visibilidade que essa vaquinha trouxe ao meu problema de saúde e apesar de no site oficial da vakinha ter alcançado apenas 16% do valor estimado (Só consegui arrecadar 400 reais e desse valor quase 100 reais ficou para o site), no entanto, a repercussão da vaquinha fez com que professores, amigos e familiares fizessem doações diretamente em minha conta bancária e com isso consegui arrecadar o dinheiro e comprar meu primeiro par de lentes. Sou grata, em especial, a uma docente da graduação que junto com a sua família fez uma doação no valor de dois mil e quinhentos reais.

Em 2017, precisei trocar as lentes de contatos adquiridas com tanto esforço em 2016. A doença estava progredindo e, para piorar, com a progressão as lentes acabaram folgando, caindo do meu olho e quebrando. Para comprar um novo par de lentes Painho fez um empréstimo bancário e foi assim que eu conseguir comprar meu segundo par de lentes.

Em 2018, minha lente do olho esquerdo já não estava mais servindo o que resultou na queda e quebra da mesma. A lente do olho direito (que já está em tempo de trocar) ainda estava servindo e eu dei continuidade a minha vida usando apenas a lente do olho direito. A ausência da lente do olho esquerdo impactou bastante todos os aspectos de minha vida. Abandonei a escrita do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) por não conseguir realizar as leituras necessárias, diminui as publicações nas minhas redes sociais e parei de escrever.

As dores de cabeça eram tão intensas que inúmeras vezes fiquei desnorteada, sair de casa era horrível, muita dor nos olhos, a claridade me incomodava e eu tinha medo de ser atropelada na rua. E foi justamente em meio a esse processo insuportável que a Clínica Sensorial entrou em contato comigo me convidado para fazer um teste de adaptação de uma nova lente de contato desenvolvida especialmente para pacientes cuja a doença já havia avançado (como é o caso do meu olho esquerdo). Testei e me apaixonei pela Lente de Contato Escleral.

A qualidade da minha visão esquerda não melhorou 100%, na verdade, só consigo enxergar 40% com ela, mas, as dores de cabeça e o conforto proporcionado por aquela lente me encheu de esperanças. Finalmente comecei a imaginar que dias melhores estavam por vir, porém, novamente, eu não tinha condições de pagar. No dia 20 de novembro de 2018, fui surpreendida por Dr. Mauro Dias que decidiu me presentear com a Lente Escleral para o olho esquerdo, já que a lente do olho direito, naquele momento, estava boa. Pense numa pessoa que ficou imensamente feliz? Eu mesma!

No dia 17 de agosto de 2019, minha lente escleral caiu e quebrou. Pense numa tristeza? Pois é, de lá para cá, venho tentando conseguir juntar dinheiro para comprar outra e trocar a lente do olho direito (que já está próxima da data de vencimento), o problema é que eu não consigo um emprego e sem renda a perspectiva de conseguir lentes novas não é nada boa.



E como se já não bastasse o desemprego e a necessidade de comprar um novo par de lentes de contato no valor de 3 mil reais (Rose K2 para o olho direito e Lente Escleral para o olho esquerdo), tenho que lidar com o fato de que minha visão, mesmo com lente, não está 100% boa. O Ceratocone é uma doença crônica, cuja a tendência nos decorrer dos anos é se agravar. Por esse motivo, em 19 de abril de 2018 o meu oftalmologista fez a solicitação de inúmeros exames dos quais eu não tive condições de realizar por falta de dinheiro. Dá uma olhada no relatório:



Já fiz todas as pesquisas possíveis sobre os tratamentos supracitados, no entanto, apesar do sonho de fazer o mapeamento da córnea para saber se estou apta para realizar quaisquer desses procedimentos não tenho como fazê-los no momento. Durante o mês de agosto escrevi um texto/desabafo sobre como eu me sentia e como a perda da minha visão afetava diretamente minha vontade de viver e a minha autoestima. Segue um trechinho do desabafo:



Esse desabafo circulou entre algumas pessoas da minha rede de amizade até que chegou ao deputado federal Jorge Solla, (médico sanitarista e político brasileiro, ex-secretário de saúde do município de Vitória da Conquista e do estado da Bahia e, atualmente, Deputado Federal por este estado, filiado ao PT) que se sensibilizou com o meu desabafo conseguindo para mim, no dia 02 de setembro de 2019, uma consulta no Instituto Hcoe – Hospital de Olhos em Feira de Santana, pelo SUS.

O Hcoe é um “hospital escola” e eu me senti em um episódio de Grey’s Anatomy com tantos olhos atentos a minha situação. O objetivo da consulta era avaliar a necessidade de um transplante de córnea ou algum outro procedimento cirúrgico. A consulta contou com um especialista e aproximadamente dez (residentes?) oftalmologistas. Pelo que pude compreender, o Hcoe é um hospital particular que possui uma ala de atendimento pelo SUS. Os médicos presentes na minha consulta sugeriram possíveis tratamentos visando o que melhor surtiria efeito para o meu caso. Juro que realmente parecia um episódio de Grey's Anatomy e isso foi beeeeeeeem legal. rs

Por fim, chegaram à conclusão que minha córnea tá limpa, saudável, apesar da deformidade, e sem opacidade (isso é bom). Sendo, nesse momento desnecessário um transplante de córnea (Eu ouvi um amém?). Todavia, o olho esquerdo, que é o que eu não enxergo nada (sem lentes de contato), irá passar por um processo de avaliação de lentes de contato escleral e se não obtiver uma resposta positiva, essa mesma equipe irá pensar em estratégias para melhorar minha visão.

Quanto aos encaminhamentos:



Drª Larissa Balbi solicitou uma avaliação para adaptação de lentes de contato escleral. Ano passado fiz essa avaliação na clínica Sensorial aqui em Santo Antônio de Jesus. Perguntei se a avaliação da Sensorial serviria e ela disse que sim, desde de que esteja atualizada. Para isso, terei que realizar uma consulta no valor de 200 reais, com a finalidade de comprar a lente escleral cujo o valor individual é 1.350 reais e o valor do par é 2.700 reais.

Fiz a avaliação solicitada pela Drª Larissa Balbi após conseguir, através de correções de artigos acadêmicos, o valor da consulta (200 reais) e o valor da ceratoscopia computadorizada (150 reais). Durante esse mês de novembro pretendo retornar a Feira de Santana para marcar uma revisão. Estou animada com o fato de não precisar fazer um transplante de córnea, porém, o que me deixaria radiante seria realizar o mapeamento da córnea e ver a possibilidade de colocar o anel intra-estromal e/ou crosslink. As lentes de contato, para mim, são como uma prótese, uma prótese que limita minha qualidade de vida, que me impede de fazer inúmeras coisas (inclusive entrar no mar ou piscina), gostaria de não ter tanto medo de fazer coisas simples e acabar perdendo minhas lentes ou comprometendo a qualidade da minha visão, ainda assim, reconheço que foram as lentes de contato que possibilitaram minha colação de grau, sem elas eu não sei nem o que seria de mim.



Enfim, no momento, eu gostaria de ter um emprego para poder comprar um novo par de lentes de contato, assim como, ânimo para acreditar que as coisas irão melhorar e uma boa visão para seguir fazendo o que eu amo fazer: ESCREVIVER!

Por que nos relacionamos com pessoas ruins?

Ilustração: Amanda Favali


A dor pode nos fazer acreditar em coisas que não existem. Talvez, por isso, tenho sentido muita vontade de sair por aí falando coisas horríveis sobre você, nada do que você não tenha feito, porém, nada que eu não tenha concordado que você fizesse (nós dois fizéssemos).

A verdade é que, antes de me sentir como eu me sinto agora, eu estive de acordo com tudo. Por isso é errado após ter aceitado em comum acordo o que você tinha para me oferecer eu sair por aí falando mal de você. E essa é a pior parte, sabia? Porque eu não caí de paraquedas nessa relação e não permaneci nela porque eu estive sendo iludida o tempo todo ou sendo enganada, pelo contrário, eu sempre soube que você era um puto e nunca fiquei puta com isso, até agora.

Porque agora eu estou tão machucada que eu sinto vontade de te ferir tanto quanto eu me sinto ferida. O problema é que você não fez nada de errado, nenhuma das nossas regras foram quebradas por você e, mesmo assim, nada parece certo para mim. É, de fato, a dor pode nos fazer acreditar em coisas que não existem!

O nosso combinado inicial já não combina em nada comigo, as regras continuam as mesmas e, aparentemente, elas continuam funcionando para você. Porém, eu não sou a mesma. O nosso acordo está em discordância com as pessoas que ambos nos tornamos ao decorrer desses anos, mesmo você insistindo em negar que ambos não somos mais as pessoas que éramos no início disso tudo.

As nossas regras, que outrora pareciam ideais, já não fazem mais nenhum sentido para mim e quebrá-las se tornou uma espécie de vício (sinto que eu deveria pedir ajuda). E você que odeia brigas e discussões passou a conviver comigo e a minha fúria. Eu me tornei a própria deusa da guerra, mas ainda não sei ao certo por quais motivos me sinto tão furiosa com você. E as cobranças, antes inexistentes, passaram a se tornar cada vez mais frequentes e junto as cobranças vieram as inúmeras acusações.

Sabe, nós mulheres negras ainda estamos aprendendo a falar abertamente sobre relacionamentos afetivos tóxicos. Só agora estamos aprendendo a identificar os chamados "caras embustes". Por isso, para nós, só agora se tornou possível cair fora da relação com vida antes que seja tarde demais. Porém, o que pouco discutimos entre nós é sobre a nossa saúde mental, — como a vivência cotidiana do racismo pode produzir danos e afetar a nossa capacidade de dar e receber amor —, e o quanto ela é fundamental para que tenhamos relações afetivas saudáveis.

Falamos sobre as opressões que vivenciamos cotidianamente e como o racismo afeta nossas vidas em diversos âmbitos. Contudo, não falamos sobre como a opressão e a exploração do período escravocrata distorceram e impediram a nossa capacidade de amar. Amar, para nós, não é uma tarefa fácil, por isso, inúmeras pessoas negras acreditam ser incapazes de dar e receber amor. Eu mesma, durante toda a minha adolescência, me considerei inamorável.

E, mesmo agora, compreendendo melhor por quais motivos me sentia assim, (o racismo produz marcas profundas), ainda tenho muita dificuldade em lidar com os interesses afetivos destinados a mim. Ah! E eu amo você. Tenho dificuldade de lidar com isso também, aliás, a descoberta desse amor foi assustadora, mas tenho aprendido a lidar com ele (o amor), comigo e com você.

Não está sendo fácil, ainda assim, de certa forma, eu sempre soube que o amor era difícil. O que ninguém me disse foi o quão difícil é estar num relacionamento afetivo com alguém que possui uma doença psicológica ou ser alguém com uma doença psicológica dentro de um relacionamento afetivo. O que ninguém me disse foi que não dá para seguir a “cartilha” do feminismo branco quando se está num relacionamento afetivo com um homem negro depressivo.

E ainda assim, é isso que somos instruídas a fazer cotidianamente. Essa “cartilha” me ensinou que se você não me liga é porque você não liga para mim, não está nem aí para o meu bem-estar e eu devo te abandonar.

Se você não me atende é porque está ocupado demais para se importar comigo, aliás, você não se importa comigo, por isso, devo fazer a fila andar.

Se não me atende e não me retorna é porque não dá mínima para a minha existência e eu mereço mais do um cara como você.

Se visualiza e não responde de imediato é porque não quer falar comigo, está me ignorando e eu devo devolver na mesma moeda, te ignorando o dobro.

E se não me exibe por aí é porque sente vergonha de estar comigo ou está escondendo algo de mim e o ideal, nessa situação, é que eu mande você ir se foder.

O que eu demorei para compreender é que você não me liga porque não liga para ninguém, pois, não é muito fã de ligações ou áudios, por isso, sempre termina optando pelo texto escrito.

Tem dias que você não me atende porque não tem ânimo para falar com ninguém e termina saindo de casa para ir trabalhar contrariado, desmotivado.

Às vezes você visualiza e não responde de imediato porque está ocupado, trabalhando ou tão irritado que prefere deixar para responder em outro momento ao invés de descontar suas frustrações em mim ou responder com rudez e iniciar uma briga.

E, por fim, você não me exibe por aí porque você não gosta de se expor, mas também não faz questão de me esconder, pelo contrário, está muito ocupado se escondendo de todo o mundo.

Recentemente eu aprendi que é preciso abraçarmos os nossos próprios demônios, caso contrário, eles irão nos atacar pelas costas. Acredito que cada pessoa possui ao menos um assunto (demônio) do qual vive fugindo, ao invés, de enfrentar (exorcizar). Por isso, aqui estou eu, enfrentando os meus demônios. Na verdade, já não tenho mais como não falar sobre eles, sobre mim, sobre você e sobre o nosso não-relacionamento.

Nos últimos meses eu fui tão má com você, tão impaciente, impulsiva e briguenta. Passamos a brigar por tudo e nada, quer dizer, eu brigava e você tentava entender o que havia feito de errado. E, na maioria das vezes, você não havia feito nada de errado, porém, a distância entre nós dois parecia aumentar a cada milésimo de segundo e você demonstrava não perceber que isso estava acontecendo, aliás, você parecia não perceber nada que estava acontecendo ao seu redor ou o quão frio e insensível estava sendo comigo.

Desde que te conheci você sempre foi tímido e afetivamente distante, apesar de ser, quase sempre, empático e atencioso. E eu não imaginei que a sua timidez pudesse ser um sinal de que algo não estava ok. Também não vi nada demais no fato de você ser tão reservado. Sinceramente, para mim você ser reservado era confortável, pois, enquanto você se mantinha na sua as minhas narrativas descreviam as nossas vivências, o que fazia de mim a dona da história e de você um mero personagem na minha escrevivência.

Só que em determinado momento as coisas realmente pioraram entre nós dois. Você começou a se comportar totalmente diferente do cara que eu conheci e com isso nossas brigas passaram a se tornar cada vez mais intensas e verbalmente desagradáveis, isso porque eu não conseguia compreender os motivos das suas mudanças de humor e você insistia em dizer que não haviam mudanças nenhuma.

A minha necessidade de brigar o tempo inteiro e a sua insistência em dizer que tudo estava bem me fez, em algumas situações, questionar minha saúde mental, mesmo assim, minhas dúvidas sobre a minha sanidade não inibia a minha vontade de brigar. Pelo contrário, brigar com você se tornou uma necessidade para mim, tal como é respirar. As brigas fizeram você se tornar ainda mais introspectivo e frio. E eu comecei a te enxergar e a te descrever como uma pessoa extremamente ruim.

Para a minha percepção você se tornou o macho escroto, o cara embuste, a pessoa ruim. A forma como eu passei a ver você era depreciativa, tudo em você era visto por mim como ruim e eu conseguia ver defeitos tanto nas coisas que você fazia quanto nas coisas que você não fazia. Para mim, os seus comentários se tornaram ainda mais ácidos, você se tornou ainda mais irredutível, ranzinza, impaciente e rude. Tudo que antes era admirável em você se tornou desagradável para mim.

Você também se tornou desagradável comigo sem nenhum motivo aparente e sempre que eu sinalizava isso você discordava e se afastava, chegando ao extremo de ficar várias semanas sem falar comigo. O seu distanciamento me fazia sentir como se você estivesse me punindo por eu ter dito “a verdade”. E essa sensação de injusta punição assegurava que brigássemos novamente, assim que voltássemos a nos falar. No entanto, o afastamento não era exclusividade sua, afinal, quantas vezes já te bloqueei nas redes sociais ou sumi por vários meses sem dar sinal de vida?

O que me magoa é que em nenhum momento passou pela minha cabeça que nada disso era sobre mim ou por minha causa. Em nenhum momento pensei em colocar nossa saúde mental como possível causa. Na verdade, eu me coloquei fisicamente como possível causa e deixei minhas inseguranças alimentarem a minha fúria, mesmo quando você tentava me dizer que não havia deixado de gostar de mim e muito menos havia deixado de se importar comigo.

O que me entristece é saber que esse texto poderia ser sobre você, na condição de “macho escroto” protagonizando a minha narrativa sobre um relacionamento abusivo que nunca existiu e, ainda assim, mesmo sendo inexistente eu sei que inúmeras pessoas acreditariam em mim, aliás, eu mesma acreditaria em mim se eu não nos conhecesse tão bem.

Finalmente, eu compreendo que você nunca mentiu sobre como se sentia sobre mim, assim como, também compreendo que você nunca me magoou intencionalmente. Você não é um abusador. Não é um macho escroto, não é um embuste e, definitivamente, não é uma pessoa ruim. Às vezes, o cara escroto, embuste e ruim não é exatamente esse cara que julgamos que ele seja. Porém, não existe uma história única e cada relacionamento possui um percurso próprio a ser percorrido.

Às vezes, de fato, nos relacionamos com pessoas ruins. Mas, se tratando de você e da nossa história ambos fomos ruins em determinados momentos e muito bons em inúmeros outros. Sei que eu preciso seguir seus passos e começar a fazer terapia, pois, saber que você é um cara com depressão e traços de distimia preenche algumas lacunas que antes me deixava bastante confusa e magoada. E apesar de saber disso não facilitar muito a nossa relação ao mesmo assegura que tenhamos uma relação, né?

Ter uma doença psicológica não anula todos os nossos problemas ou, sequer, justifica todas e quaisquer atitudes. Esse texto não é sobre justificativas ou anulações, pelo contrário, esse texto é sobre como você me tornou uma pessoa melhor, esse texto é sobre eu ter me perdido em você ao longo desses anos e, ainda assim, sempre me sentir em casa quando se trata de você. Esse texto é sobre termos um monte de sentimentos e não sabermos ao certo o que devemos fazer como eles. Esse texto é sobre eu ter escolhido ficar mesmo quando a decisão mais lógica seria eu ter ido embora.

Ah! Esse texto é sobre... Eu amo tanto você!


Buceta delivery


(Ilustração: @isvobodart)











Não lembro onde nem quando ouvi esse termo, mas lembro que o contexto se tratava de caras que não queriam mover um dedo para obter sexo. Pelo contrário, eles ficam esperando as mulheres ir até eles para satisfazê-los. E até aí tudo bem, né? A buceta é sua e você decide quem entra e quem sai. Esse texto não é uma crítica às mulheres, mas sim um desabafo. Eu nunca tinha pensando sobre esse termo ou no fato de que eu venho conhecendo vários caras que buscam "bucetas delivery". E por mais que eu ache o termo pejorativo não sei se eu seria capaz de encontrar melhor título para esse desabafo. Então, percebi que eu venho conhecendo inúmeros caras que não fazem o mínimo esforço para me ver, me conhecer, no entanto, eles sempre sugerem encontros em lugares mais reservados.

Vou compartilhar com vocês algumas situações:

SITUAÇÃO 01: O cara estava morando em Jequié, nos conhecemos através do tinder e, aparentemente, o interesse era mútuo. Depois de algumas semanas conversando decidimos que seria legal nos encontrarmos para bater um papo, trocar um abraço e, se ambos estivessem com vontade, transar. Eu o convidei para vir me conhecer e ele questionou se eu morava sozinha e se ele poderia ficar na minha casa. Eu disse que não e que mesmo se eu morasse sozinha não traria um desconhecido para minha casa. Ele ficou ofendido e por algum tempo parou de falar comigo. Em determinado momento voltamos a nos falar e ele me convidou para ir até Jequié conhecê-lo e eu disse que tudo bem. Durante os ajustes para minha ida sinalizei que eu gostaria que ele fosse me encontrar na rodoviária, no entanto, ele disse que não iria. Disse que iria me passar o endereço da casa dele e que eu poderia pegar um táxi ir até lá sozinha, pois a rodoviária era muito longe da casa dele.

SITUAÇÃO 02: Um cara me adicionou aqui no facebook e começamos a conversar. Rolava um flerte saudável entre a gente, até que um dia ele me convidou para ir conhecê-lo. Ele morava em Conceição do Almeida (cidade vizinha) e eu disse para ele vir para SAJ (Santo Antônio de Jesus, local onde moro), para almoçarmos ou ir ao cinema e nos conhecermos. Ele disse que era melhor eu ir vê-lo e eu questionei o motivo (fiquei curiosa). Segundo ele, se eu fosse conhecê-lo na casa da mãe dele (onde ele morava) as chances de rolar sexo eram bem maiores do que ele vindo aqui almoçar comigo. Inclusive me disse para ir vê-lo e levar camisinhas.

SITUAÇÃO 03: Deu Match! Mas não deu mesmo, rs. Conheci o cara num aplicativo de relacionamento. Moramos na mesma cidade e ele parecia ser legal (só parecia mesmo). Até que eu sugeri de nos encontrarmos na Beijo Frio (uma sorveteira que eu costumo ir) e ele me disse que era melhor eu ir para casa dele, que o sorvete dele era bem mais saboroso (argh!). No dia seguinte ao meu convite (que ele recusou), ele postou uma foto no stories do WhatsApp tomando sorvete na Beijo Frio.

Eu tenho várias outras situações semelhantes para contar, mas vamos conversar somente analisando essas três, ok?

Na primeira situação, cheguei a sinalizar que seria menos desconfortável e mais seguro ele ir me encontrar, falei das inúmeras possibilidades de me perder antes de conseguir encontrar o endereço dele, falei sobre o risco de ser assaltada e/ou estuprada no decorrer do caminho. No entanto, o cara me chamou de exagerada e disse que eu estava fazendo drama. Por fim, eu desisti de ir conhecê-lo. Veja bem, eu iria sair do conforto da minha casa, gastar dinheiro com passagem para ir ver um cara que se recusou a ir me encontrar porque a rodoviária ficava longe demais da casa dele.

Na situação dois, o cara queria que eu fosse vê-lo na casa da mãe dele, (com a mãe dele estando em casa, eu perguntei) e que levasse camisinhas para ele me foder. Sinceramente, nem quando eu era uma adolescente eu tinha o hábito de ir para casa da mãe de ninguém transar, cês acham que vou começar agora depois de adulta? Me poupe, viu? Existe hotel, motel, pousada pra que mesmo? Optei por não conhecê-lo e não me arrependo.

Precisamos mesmo falar da situação três? Então, o cara não quer me conhecer. Ele quer sexo, quer que eu vá até a casa dele, sem nunca tê-lo visto na vida, dar para ele. Não vai rolar, prefiro ir tomar sorvete, lá na Beijo Frio, sozinha! Antes só do que mal acompanhada, rs.

Como já disse, venho conhecendo vários caras que buscam “bucetas delivery”. Caras que nunca querem se encontrar em lugares públicos, caras que nunca se disponibilizam para nada, aparentemente, nem para comprar camisinhas. Acredito que sexo é partilha, sendo assim, não é obrigação do cara comprar camisinhas, não é obrigação do cara pagar conta de motel sozinho, assim como, não é obrigação levar a mina para sair e pagar sozinho tudo que ambos consumirem. No entanto, venho me deparando com caras que não querem partilhar nada, nem a própria companhia. Sabe, eu acredito que devido ao fato de nós mulheres, especialmente as feministas, começarmos a adquirir maior independência e a correr atrás do que queremos os caras começaram a se comportar como se devêssemos correr atrás deles e pagar altíssimo para transar com eles. Porém, não vejo lógica nenhuma em transar com um cara que fica esperando sentado a mina ir lá chupar o pau dele até ficar duro o suficiente para ela sentar. Caras que, inúmeras vezes, se recusam a chupar bucetas, caras que sequer são minimamente educados, caras que acham que sexo é só penetração.

Caras que não precisam fazer absolutamente nada, sabe? Não precisam transar bem, não precisam saber chupar uma buceta (isso é importante), sequer precisam tratar a mina com respeito e/ou decência. Conheço caras que mentem, traem, assediam, agridem, estupram e, mesmo assim, basta um clique, uma ligação, uma mensagem grotesca em qualquer rede de relacionamento para que alguma mina vá satisfazê-los. Como isso é possível?

Manas, quem esses caras estão pensando que eles são?

P.S.: Fico pensando se essas situações são exclusividades minhas por ser negra e gorda. Afinal, tem cara que acha que mulheres gordas devem agradecer quando alguém quer transar com elas. Enfim, compartilhem comigo as situações pelas quais vocês já passaram e/ou ainda passam.
  
(Texto originalmente publicado no meu perfil do facebook em 26 de fevereiro de 2018)