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Quase amor!


Venho encarando o cursor piscando na página em branco do meu bloco de notas por várias semanas, aliás, vários meses. A verdade é que eu estava com muito medo de voltar a escrever. Estava com medo por saber quão desagradável e afiada a minha escrita tende a ser. Ela é dolorosa, sabe? Além de ser extremamente sincera e isso nem sempre é algo bom. Mas, venho pensado muito em você ultimamente, venho pensando nas nossas inúmeras conversas e o motivo pelo qual eu ainda não consegui escrever sobre você aqui. Há algum tempo eu costumo dizer que eu deveria vir com uma sinalização de segurança, grifada em Caps Lock (caixa alta) e Cores Néon, sinalizando: “ — Cuidado, Alta Voltagem”, até conhecer você. Na verdade, mesmo após conhecer você eu continuo acreditando que eu deveria andar por aí com a minha plaquinha preventiva, no entanto, você deveria sair por aí expondo a sua plaquinha também, você deveria sair por aí com o aviso: "Cuidado, frágil".


Preto, quantas vezes eu irei conseguir quebrar o seu coração até você perceber que por mais que eu tente ser cuidadosa jamais irei conseguir conter o vulcão que habita meu íntimo? Quantas vezes iremos reavaliar todas as oportunidades que nós dois não aproveitamos corretamente ou que deixamos passar despercebidas? Desculpa, eu não queria magoar você, mas acabei fazendo disso meu hobby. Magoar você se tornou minha atividade favorita e eu já nem sei o que fazer para quebrar esse ciclo vicioso. E o problema é que não magoar você se tornou algo improvável para mim. Não é que eu não me importe contigo. Sei que às vezes eu posso demonstrar uma insensibilidade assustadora, porém, eu me importava com os seus sentimos. Para ser sincera, eu ainda me importo e sinto a sua falta.

Mas eu não te amo, aliás, eu acho que não te amo (mesmo sentindo a sua falta). Ainda não sei direito se te amo ou não te amo, estou incerta quanto a isso. Gosto de pensar que se eu te amasse eu saberia. No entanto, quando é que sabemos que amamos a outra pessoa? Existe alguma espécie de teste para assegurar nossos sentimentos? Questiono porque eu já amei antes e não foi nada parecido com o que eu sinto agora, eu já amei antes e aquele sentimento não possui nenhuma semelhança com o que eu sinto por você. Será que o que eu sinto por você é amor ou será que o que eu senti anteriormente nunca foi amor? Estou confusa, incerta e receosa.

Porque sempre que eu penso em amor projeto em minha mente uma imagem de mim mesma dançando no meio de uma sala (que não é a da minha casa) vestida com uma blusa branca fofinha com estampa de gatinhos e uma calcinha igualmente branca, sem estampas, e de algodão (poderia ser renda, né?). Ah, nessa projeção também estou usando meias cinzas e rebolo ao som da Alicai Harley. Mentira, na realidade eu canto e pulo bem mais do que rebolo. Enfim, não é algo sexy e caso você esteja imaginando algo sensual, saiba que não é.

Eu costumo ri muito sempre que visualizo essa cena por ser algo tão ingênuo e bonito de visualizar. Só que sempre finalizo minha imaginação desanimada por saber que todo o contexto parece inapropriado para mim, principalmente por causa das meias (raramente uso meias). Essa projeção que o meu imaginário faz sempre que eu penso no amor me faz pensar bastante em uma das nossas últimas conversas. Tenho pensado, com desânimo, no quão eu, você, o amor e a minha projeção do amor somos dispares. Estive pensando sobre o quão terrível eu posso ser e no quão cuidadosa eu deveria ter sido, o tempo inteiro, para não ser terrível com você (e eu falhei de maneira absurda nessa parte).

Outro dia um amigo me disse que sou uma garota que adora looping (repetição automática de uma ocorrência; andar em círculos) e a tática dele para driblar meu looping é evitar esse meu péssimo hábito. Já a sua tática é me evitar constantemente colocando em prática o seu próprio looping que consiste em: se aproximar de mim, se machucar e me afastar em seguida. E eu sei que você me afasta porque eu te assusto, (caramba, eu te apavoro).

Me diga: Qual é a sensação de ter algo e ao mesmo tempo não ter? Porque nós dois sabemos que você me tem, mas eu sou minha.

Também costumo rir de mim, de você e da possibilidade de existir nós, mesmo quando as circunstâncias não são engraçadas. O problema é que eu não consigo não rir do seu desespero ao tentar me proibir, me podar e me controlar. Você nunca aprende que eu não funciono assim e isso me irrita. E é algo tão óbvio que já deveríamos ter superado isso, né? A questão é bem simples: Quanto mais nãos você me disser, quanto mais desaprovações você me der mais questão eu farei de vivenciar tudo que eu puder. E por causa da minha teimosia em aproveitar cada sim que a vida me proporciona você acaba me bloqueando, tirando de mim qualquer possibilidade de fazer parte da sua própria vida.

Preto, nós continuamos andando em círculos (looping), já percebeu? Você sequer consegue lembrar o motivo da nossa última briga. E o que me assusta é como eu sequer percebi que estávamos brigando... Lembro que você me proibiu de escrever sobre você e eu simplesmente respondi: " — Não funciono assim, irei escrever sobre o que eu quiser escrever e se eu quiser escrever sobre você eu irei". Eu nem falei por birra ou teimosia, de fato, não funciono dessa maneira. Cara, você não decide o que eu posso ou não fazer, você não autoriza sobre quem eu posso ou não escrever. Entenda, comigo não funciona assim. Você não tem nenhum controle, comigo você não é autoridade. E sempre que você ousar mandar em mim eu irei te contrariar e por fim irei rir de você.


Sorrio porque a sua ingenuidade é engraçada demais. Você já considerou a possibilidade de ter se apaixonado por uma mulher que você não irá conseguir controlar? Será que você já considerou a possibilidade de estar apaixonado por uma mulher que você sente medo? E somado ao medo está a sua fragilidade e falta de confiança em mim.

Um textão sobre Amadurecimento e Empoderamento!


Quase sempre recebo perguntas sobre como eu me tornei uma mulher empoderada, quais mecanismos adotei para alcançar o meu amadurecimento e quais são as minhas dicas para estimular o Empoderamento de outras pessoas (Especialmente Mulheres Negras). Eu sempre sorrio diante desses questionamentos, primeiro porque apesar de ouvir essas perguntas frequentemente eu sou sempre surpreendida por elas e segundo por não saber descrever de maneira sucinta o meu caminho até aqui.

Sabe, não existe uma receita de bolo, eu não tenho um passo a passo para indicar, mas gostaria de compartilhar algumas situações que estão presentes nas minhas vivências e que de alguma maneira contribuíram (e contribuem) para o meu processo de amadurecimento e empoderamento cotidiano.

O primeiro ponto que eu destaco sempre é o lugar de onde eu falo. Eu nasci no interior da Bahia (Santo Antônio de Jesus), porém aos oito meses de nascida fui morar em Mutuípe, lugar onde vivi até os 18 anos de idade. É comum imaginarem que eu sou cria das grandes metrópoles, no entanto, sou cria do interior.

Fui criada por 4 mães pretas e consegui identificar o machismo muito antes de compreender o que era o racismo. Costumo dizer que fui criada numa bolha, durante a minha adolescência não tive contato com nenhuma prática preconceituosa explícita, não de uma maneira que me traumatizasse. Durante a minha adolescência não fui xingada, agredida ou humilhada por ser quem eu sou, mesmo assim, existiam as práticas de opressão veladas e por causa delas eu queria fazer parte de um padrão estético que não me cabia. Por isso, fiz algumas dietas, péssimas dietas, me frustrei inúmeras vezes.

Quando cresci e ingressei no curso de História, este se tonou um marco importante no meu processo, no entanto, não ingressei no curso alheia ao mundo. Em 2013 quando ingressei na faculdade eu ainda não era uma ciberativista, mas já havia começado a escrever no Mais Íntimo desde 2011, ou seja, em 2013 o meu paginômetro (contador de páginas do Skoob) já era algo que eu me orgulhava. Mesmo assim, li no decorrer do ano de 2013, 16.522 páginas somando um total de 60 livros, (e nessa conta não entra os textos da faculdade, ok?). Também em 2013 fui selecionada para ser bolsista do Pibid (Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência) cujo objetivo do sub-projeto era (e ainda é) a aplicação da lei 10.639/03 – que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas redes públicas e particulares da educação.

E o que tinha de errado com as minhas 16.522 páginas lidas?

Dos 60 livros lidos, apenas 04 livros foram realmente importantes para o meu processo de amadurecimento, e chegaram até mim através da academia, sendo eles:

01. A formação da elite colonial de Rodrigo Ricupero.
02. A identidade cultural na pós-modernidade de Stuart Hall;
03. Cultura: um conceito antropológico de Roque de Barros Laraia; e
04. Imagens da Colonização: Representação do Índio de Caminha a Vieira de Ronald Raminelli

No dia 01 de Janeiro de 2014 eu conheci o Orangotag (Rede social para organizar as séries de TV assistidas) e me disponibilizei a assistir, no decorrer do ano, 2.600 episódios de séries. Após o incômodo causado com as 16.522 páginas lidas, eis que os 2.600 episódios também me incomodaram bastante. O que aconteceu comigo?

Eu me tornei ciberativista em 2015, influenciada por todos esses incômodos e por coisas que estavam acontecendo na minha vida que me deixavam retada, extremamente furiosa. E poder falar abertamente sobre isso foi um alívio e perceber que eu não estava sozinha nessa angústia mudou minha vida.

O espaço acadêmico me apresentou possibilidades, novas perspectivas e eu comecei a visualizar o mundo de outra maneira. Na verdade, a academia me preparou (não intencionalmente) para transgredir, ela me deu os meios, me ensinou a pesquisar, selecionar, fazer recorte, argumentar, utilizar citações e também me empurrou goela abaixo um monte de autores eurocêntricos, o que foi fundamental para que crescesse em mim o desejo de ressignificar. Afinal, foi a própria academia que me instruiu para isso. A academia me deu os métodos e eu decidi como iria utilizá-los.

Não conheci Beatriz Nascimento, Conceição Evaristo, Gloria Anzaldúa, Lélia Gonzalez, Audre Lorde, Chimamanda Ngozi Adichie, Paulina Chiziane, Jurema Werneck, Sueli Carneiro e inúmeras outras escritoras(es) negras na academia. Infelizmente, durante as inúmeras disciplinas que cursei meus/minhas docentes não recorreram a elas. No entanto, tive professores(as) negros(as) que dialogaram sobre questões de gênero, classe e raça e me apresentaram autores como Bell Hooks, Kwame Nkrumah, Joseph Ki-Zerbo dentre outros.

A academia me possibilitou, me ensinou e eu aprendi perfeitamente como e onde encontrar as fontes que eram fundamentais para minha vida. Além disso, eu estive em uma situação privilegiada por ter docentes negros(as) dispostos a dialogar e contribuir com o meu processo de ensino-aprendizagem. E isso foi importante para minha vida profissional, mas principalmente para minha vida pessoal, para manutenção da minha estima. Pude perceber que nós (Negros e Negras) produzimos, escrevemos e somos bons nisso!

Atualmente o coordenador do meu colegiado é um homem negro que atua na área de África (E faz isso muito bem) isso é empoderador. E é por isso que afirmo que eu estive numa situação de privilégio, pois eu e meus/minhas colegas partilhávamos de semelhanças significativas, referências e inspirações. Nos corredores da universidade eu me vejo e vejo os meus/minhas. Acredite, isso é importe, isso é empoderador!

E alguns (pouquíssimos/as) docentes não-negros(as) demonstram uma certa preocupação com essas questões. Cursei a disciplina de “Gênero e História” duas vezes, com duas docentes distintas. Na primeira vez cursei como disciplina obrigatória com uma docente branca e na segunda cursei como ouvinte, por escolha, com uma docente negra. Ambas foram fundamentais para o meu processo de amadurecimento, ambas contribuíram de forma significativa para minha formação, pois mesmo sendo a mesma disciplina as perspectivas de uma mulher negra e de uma mulher branca nunca serão as mesmas.


Então, voltando aos questionamentos do início desse texto:

Como eu me tornei uma mulher empoderada?

É um processo contínuo, costumo ser boa ouvinte, excelente leitora e uma escritora sincera (principalmente comigo mesma).

Quais mecanismos adotei para alcançar o meu amadurecimento?
Leitura, Escrita e Fotografia.

Quais são as minhas dicas para estimular o Empoderamento de outras pessoas (Especialmente Mulheres Negras)?

Se disponibilizem, se permitam conhecer novas perspectivas. Fujam do “é minha opinião” e tentem encontrar outras inúmeras opiniões sobre determinado assunto. Empoderamento é conhecimento!

Mulheres em Movimento: Qual será a nossa herança?



Sueli Carneiro tem um artigo com título “Mulheres em Movimento”, do qual eu pego emprestado para intitular esse texto. Segundo Sueli “o feminismo transforma as mulheres em novos sujeitos políticos” e durante esse meu processo de movimento por outros espaços com outras mulheres que também estão em movimento pude perceber como essa frase me contempla.

Durante algum tempo estive preocupada com o “Empoderamento Terceirizado” conceituei por empoderamento terceirizado o hábito comum em acreditar que o empoderamento é algo que independe da nossa pré-disposição, ou seja, da nossa busca e anseio. Compartilhei esse incômodo no meu perfil e li inúmeros comentários, em especial li o comentário da professora Luciana Mariano, no qual, ela fala que o seu empoderamento se dá através do empoderamento de outras mulheres (Mulheres em movimento) e que inclusive eu sou uma referência para ela.

A partir desse comentário compreendi que eu estava errada ao acreditar que o empoderamento estava dividido em duas etapas sequenciais:

1ª Etapa: Empoderamento Individual
2ª Etapa: Empoderamento Coletivo

Eu realmente acreditava que sem o empoderamento individual não seríamos capazes de alcançar o empoderamento coletivo. Acreditava que essa sequencia era imutável. Primeiro passaríamos pelo empoderamento individual e somente após ele chegaríamos ao empoderamento coletivo. Como eu disse: Eu estava errada!

Sigo acreditando nas duas etapas, porém não existe uma ordem cronológica, pelo contrário, o processo ocorre em um ciclo. Esses processos de empoderamento estão interligados. O empoderamento individual leva ao empoderamento coletivo, assim como, o empoderamento coletivo leva ao empoderamento individual. De qualquer maneira, precisamos de ambos para seguirmos em frente.

Ontem enquanto ouvia a Jurema Werneck falar eu fiquei bastante emocionada e preocupada. Ela disse que além de herdeiros/as, somos herança. Herdamos a luta das nossas ancestrais, herdamos as causas pelas quais Dandara, Luísa Mahin, Carolina de Jesus, Luíza Bairros, Aqualtune e inúmeras outras lutavam. Somos herdeiras dos encaminhamentos da Constituição de 1988, somos herdeiras dos mecanismos que possibilitaram nosso ingresso e permanência no ensino superior (Conquistas que o governo TEMER pretender ceifar), somos herdeiras da construção de creches, dos direito ao SUS, da pílula anticoncepcional, enfim, nós somos herdeiras. E por sermos herdeiras precisamos começar a nos preocupar com qual será a nossa herança.

Creio que a nossa geração tem um mecanismo muito importante: O Ciberativismo. No entanto, precisamos começar a fazer bom uso disso. Admito que eu me isento da responsabilidade de tentar dialogar com quem não se predispõe, mas quem quer dialogar, colar junto, somar compreendendo que o nosso propósito é maior do que as diferenças pessoais e as vertentes (que mais parecem religiões) eu estou aqui. Meu inbox está disponível e além de aparecer nos eventos proposto por nós, me comprometo a buscar espaços para nós, me comprometo a buscar mecanismo que possibilitem o dessilenciamento (Seja ele qual for, onde for).

Li algumas coisas referentes a mim naquela postagem na qual eu expus uma agressão verbal, e confesso que eu fiquei preocupada com as mulheres negras que comentaram ali, pois além de me repudiarem (?????) ainda utilizaram o discurso do “Não se vitimize” e aqui estou eu pensando na infelicidade que é uma Preta adotar o discurso da branquitude. Um discurso que coloca todas as nossas questões como “mimimi” e vitimização. Pretas, abandonem ou ressignifiquem esses conceitos pejorativos que a nós são destinados, e lembrem-se que eu, assim como vocês, não preciso me vitimizar, não preciso criar situações ou fingir marcas de opressões. Eu não preciso, pois como uma mulher preta, gorda, acadêmica e ciberativista eu sei o quão desgastante são os enfrentamentos constantes, sei o quão adoecedor é se sentir sozinha e eu me sinto sozinha todas às vezes que eu levanto uma questão que para mim é uma opressão declarada, mas que para as minhas (Irmãs Pretas) não é e por isso deixam passar despercebido.

Nós somos inúmeras, somos plurais e eu não peço sororidade, porque acredito que não temos maturidade ainda para lidar com sororidade (Talvez seja uma missão para as nossas herdeiras). Mas acredito em reciprocidade e, além disso, sei que mesmo discordando e até mesmo não gostando do posicionamento de algumas pretas/os eu não irei deslegitimar os movimentos que esses estão fazendo com os mecanismos que possuem, diferente da branca que estava me deslegitimando na faculdade eu não preciso protagonizar negativamente narrativas que não me pertencem.

Gostaria de salientar que conforme ouvi durante o “II Congresso sobre o pensamento das Mulheres Negras no Brasil”: PRETA OBEDIENTE NÃO COMBINA COM MILITÂNCIA!

E eu não pretendo ser obediente, submissa ou silenciosa. Eu não pretendo ser amada fingindo não ver ou silenciando outras pretas. Nós precisamos entender que militância não é clube da Luluzinha, as nossas ações políticas são o marco maior nessa trajetória e para desenvolver ações políticas precisamos estar em ritmo com o movimento uma das outras. Nós precisamos descobrir o que nos une e partir desse princípio, precisamos nos tornar mulheres em movimento, precisamos fugir urgentemente dos títulos e das vertentes que apenas nos separam e reconhecer que nós, através das nossas especificidades, estamos em movimento e precisamos fazer algo por nós e pelas nossas.

Sobre as nossas singularidades, Sueli Carneiro diz que “essa condição faz com esses sujeitos assumam, a partir do lugar em que estão inseridos, diversos olhares que desencadeiam processos particulares subjacentes na luta de cada grupo particular. Ou seja, grupos de mulheres indígenas e grupos de mulheres negras, por exemplo, possuem demandas específicas que, essencialmente, não podem ser tratadas, exclusivamente, sob a rubrica da questão de gênero se esta não levar em conta as especificidades que definem o ser mulher neste e naquele caso. Essas óticas particulares vêm exigindo, paulatinamente, práticas igualmente diversas que ampliem a concepção e o protagonismo feminista na sociedade brasileira, salvaguardando as especificidades. Isso é o que determina o fato de o combate ao racismo ser uma prioridade política para as mulheres negras, assertiva já enfatizada por Lélia Gonzalez, ‘a tomada de consciência da opressão ocorre, antes de tudo, pelo racial’.”

Quando eu falo que precisamos descobrir o que nos une, estou dizendo também que precisamos parar de acreditar que a nossa geração independe das lutas e conquistas travadas por nossas antepassadas. Precisamos reconhecer que nós temos história, precisamos nos apossar das nossas narrativas. Lembro que Djamila Ribeiro comentou na terça-feira algo mais ou menos assim: “Durante um diálogo e/ou discussão é quase automático buscar as feministas brancas como alicerce e referência apagando as nossas próprias referências”.

É comum ler as citações de Simone de Beauvoir, Margareth Rago e inúmeras outras feministas brancas sem sequer notar que nós temos nossas próprias referências, temos nossa própria produção intelectual e precisamos citá-las. Nós (Mulheres Negras), precisamos aprender a recorrer as nossas escrevivências como convida Conceição Evaristo, precisamos citar Lélia Gonzalez, Cláudia Pacheco, Jurema Werneck, Nilma Lino Gomes, Claúdia Pons Cardoso, Sueli Carneiro, Bell Hooks, Chimamanda Ngozi Adichie, Luiza Bairros, Zelinda Bairros, Núbia Regina Moreira, Rosália de Oliveira Lemos, Paulina Chiziane, Angela Davis, Beatriz Nascimento e inúmeras outras intelectuais negras.

Essa ridicularização que ocorre quando citamos outras autoras precisa ser repensada, esse hábito de nos taxar como academicistas como se isso fosse algo ruim precisa ser repensado. Não deveria ocorrer essa ridicularização por nós conseguirmos trazer outras abordagens para o palco da discussão. Leio as críticas feitas às pretas acadêmicas como se nós estivéssemos distantes de vocês que ainda não estão nos espaços acadêmicos, aliás, leio as críticas como uma espécie de recusa a pertencer a esses espaços. Só que o intuito deveria ser justamente estar nesses espaços, espaços que fazem parte do legado das nossas e dos nossos ancestrais. Essa rivalidade é incoerente, e até parece que na academia estamos tendo acesso a um vasto referencial teórico e uma constante biografia africana/afro-brasileira.

Não é bem assim, infelizmente o ensino ainda é eurocêntrico. Por isso, bora pensar mecanismos para que vocês estejam aqui, ocupando esses espaços para juntxs somar conosco e lutar para que, por exemplo, as disciplinas de gênero, raça e sexualidade deixem de ser optativas e se tornem obrigatórias, para que a Lei 10.639/03, – que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas redes públicas e particulares da educação –, comece a ser eficaz na prática.


Por fim, termino dizendo que além de nos citar através das nossas produções, precisamos estar em movimento, como ouvi ontem na oficina Juventude Negra e Empoderamento: “Precisamos criar uma rede de mulheres em movimento. Como disse Dai costa: “Eu não faço parte de um movimento, não faço parte de uma instituição. Eu sou o movimento!”. Como disse Bell Hooks: “Eu não sou feminista, eu defendo o feminismo”. Talvez esse seja o momento de nós nos afastarmos um pouco dos títulos e pautar quais são as ações políticas que juntas precisamos defender.