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Carta aberta ao ano de 2021!

 

Você nem chegou ainda e já carrega tantas expectativas, metas e esperança de dias melhores... Parece injusto contigo, mas a vida não é lá muito justa, né? O triste é que 2020 se despede carregado de más vibrações e maldizeres como se a culpa de tudo de ruim que nos acometeu ao longo desse ano fosse realmente culpa do ano.

 

É impossível termos controle sobre todos os aspectos da nossa vida, em especial, sobre a nossa morte. E foram tantas as mortes que gostaríamos que não tivesse acontecido esse ano. Tantas perdas no mundo inteiro... A minha família também precisou lidar com a perda de um ente querido e isso foi mais difícil do que eu poderia imaginar, na verdade, ainda estamos lidando com o nosso próprio luto, da nossa própria maneira (sem abraços acolhedores ou ombros para chorar por conta da pandemia).

 

Eu poderia listar tudo de ruim que aconteceu em 2020 e te implorar que o seu ano seja diferente, seja melhor, mais amável e Mais Íntimo. Mas, não farei isso! Não gostaria que 2020 fosse cancelado ou apagado de nossas memórias, pois apesar de todas as perdas e dificuldades sinto que esse ano também nos reservou inúmeras surpresas boas. Aprendemos a valorizar o contato presencial, — em um mundo onde o virtual parecia competir com o mundo físico —, aprendemos a nos cuidar em prol de cuidar de outras pessoas, aprendemos a ter mais empatia e a ser solidários. Nem todas as boas ações foram filmadas e divulgadas, mas inúmeras coisas boas aconteceram esse ano também.

 

Eu imaginei que o meu 2020 seria completamente diferente.

Primeiro, imaginei que estaria empregada, mas para a minha surpresa, eu que apareci em vários veículos de comunicação nacional com a Poética do Desemprego, agradeci por não precisar sair de casa, colocando Mainha e Vovó em risco, para trabalhar. Agradeci também por não ter que, de uma hora para outra, me adaptar ao ensino remoto. Estranhamente, eu agradeci por estar desempregada (— que confuso, né?).

 

Segundo, imaginei que o meu nome já estaria na lista de transplante de Córnea do SUS. Quando descobri que preciso de um transplante (talvez dois) demorei bastante para compreender o quanto isso irá alterar a minha vida (doze meses depois e ainda estou processando a informação e aprendendo o quanto mudanças de hábitos físicos e alimentares são difíceis). Como moro em SAJ City e faço tratamento em Feira de Santana, a pandemia também comprometeu o meu trânsito, as idas e vindas precisaram cessar em prol de não comprometer a minha saúde e a da minha família, e isso comprometeu o meu progresso com o Banco de Olhos.

 

Nesse intervalo de meses, dei início aos exames pré-operatórios e novamente fui surpreendida com o diagnóstico da Talassemia, (eu jurava que meu sangue estava me atacando, até disse isso a minha médica e parece que ele estava mesmo, rs), e com a Talassemia surge a necessidade de iniciar um acompanhamento com Hematologista para saber mais sobre a doença e sobre o quão isso poderá afetar meu transplante.

 

Mas, diferente de quando fui diagnosticada com Ceratocone, (lá em 2013), eu não me senti desesperada ou sequer triste. Na verdade, fiquei bastante feliz por ter ouvido o meu corpo (nosso corpo fala conosco o tempo inteiro, sabia?), por ter acreditado nele e por ter compartilhado com a médica a minha teoria de que o meu sangue estava me atacando, mesmo quando hemogramas anteriores não mostravam nada.

 

Esse ano foi desafiador, não irei mentir. Mas sou imensamente grata por tudo que vivi, pela quantidade de coisas que aprendi, pelos projetos que desenvolvi, em especial o Projeto Geniandria, pelos/as clientes que conquistei, por todas as pessoas que colaboraram com a minha vakinha online e com a minha vakinha interna (que possibilitaram a realização da compra do meu novo par de lentes de contato que custaram 3 mil reais e a realização de alguns exames pré-operatórios).

 

Sou imensamente grata pelas pessoas que se preocupam comigo diariamente, pela minha rede de apoio que me acolhem e se mobilizam em prol de buscar soluções. Sou imensamente grata por vocês que colam junto e que em nenhum momento, ao longo desse ano que nos manteve em isolamento social, permitiram que eu me sentisse sozinha nessa luta contra um sistema de saúde que, apesar de ter profissionais maravilhosas, ainda é muito lento em vários aspectos e por conta dessa lentidão acaba colocando as nossas vidas em risco.

 

Para 2021, não farei minha famosa wishlist com 12 metas a serem realizadas ao longo do ano. Sem objetivos de desejo irreais ou mirabolantes nesse novo ano. Na verdade, o meu único desejo é permanecer viva junto as pessoas que eu amo e que fazem parte da minha vida.

 

 

FELIZ ANO NOVO!

Seja bem-vinde 2021.

 Santo Antônio de Jesus-BA, 31 de dezembro de 2020.

 

Com amorAndrielle Antonia.


Noite tomada de Assalto.



À quem estou defendendo? À mim que sofro as represálias de um sistema que me exclui pelo cabelo que possuo? Ao discurso que carrego comigo de ver um preto favelado como um irmão desconsiderado pela corrupção como eu sou? À possibilidade de reverter os resultados de tamanho descaso do estado à populações à margem de uma educação de qualidade, de saúde de qualidade, acuados, sobrepostos, subalternos, sofredores como eu sou? 

O que leva alguém ao crime? O que leva alguém à não identificação de si no outro? O que leva à alguém subtrair de um dos seus a dignidade? Do prazer do outro, seu contíguo, usufruir de um bem que é dele de direito? 

Hoje fui assaltado, eu e uma outra. Meses de reclusões, de bares não idos, de festas não curtidas, de negações, de trocas por nada? Por uma não identificação? O que leva um preto como eu me subtrair, dizer que vai me matar se eu reclamar por um direito meu de possuir um bem, fruto de meu trabalho, de resistência à minha exclusão, à nossa exclusão?

Como um negro como eu, excluído como eu, pode me lesar? Como eu, desempregado, negro, homossexual, membro de uma religião africana, oriundo de uma família de classe financeira menos abastada pode ser assaltado por um, dois negros?

Nem este reconhecimento foi permitido à obtenção ao meu irmão?

Terá sido ausência de reconhecimento meu? Achar que o Power do Black me imunizaria destes infortúnios? Ou achar que o fato de eu ter acesso, por mérito unicamente meu e dos meus, à uma educação dita de qualidade, me isentaria de ser subtraído mais uma vez?

Não os odeio, mas sinto muita raiva. Raiva por ser tirado de um estado de felicidade e e comemoração pelo evento maravilhoso realizado por mim e pelos meus colegas, futuros administradores (administra-dores). Raiva por ver à mim e à minha colega de infância e de turma coagidos aos que sequer possuem perspectivas , talvez por escolha, não sei. Raiva por tê-la ouvido dizer que os queria mortos. Raiva por ter visto minha amiga chorar pelo segundo aparelho celular roubado em menos de um mês. Raiva por nem sequer pretender requisitar de volta o que era meu, nosso. Raiva por não ter revertido a situação, de fazê-los perceber que somos um, que estamos à deriva das imposições excludentes. Raiva por não ter um Estado que nos acolha, que não saciem nossas necessidades, as nossas e as deles. Raiva por sequer terem uma noção mínima de afetos, compreensões maiores que as que possuem, Identidade.

Porém agradeço por não ter lembrado que possuía em meu bolso uma tesoura, "arma branca". Por não terem revistado meu bolso que continha o dinheiro da produção do evento ao qual participei. Por não terem encontrado a minha raiva, o meu descompasso, o meu ódio ressentido, a minha revolta. Agradeço por terem encontrado a minha felicidade, o prazer de um dia de vitórias, de agrados, de reflexos de minhas potencialidades, dos acertos, dos afetos dos meus. De minhas outras queridas terem ido ao perceber que algo de ruim aconteceria, de terem percebido e fugido do que seria acometido à elas também caso tivessem ficado por mais 30 segundos.

Amanhã ele terá aparelhos bloqueados, chips bloqueados, R$ 20,00 gastos em 4 pedras de crack. Não agradeço por isto. Mas continuo com raiva e que esta me sirva de motivação para continuar conquistando para mim e para os meus.